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  • Publicidade infantil: um convite à vida consumista

    Publicidade infantil: um convite à vida consumista

    Psicanalistas, publicitários, advogados, pais e mães avaliam os impactos dos anúncios sobre a infância e as consequências desse assédio das marcas no desenvolvimento das crianças

    (Conteúdo escrito em 2015, para projeto durante a graduação em Jornalismo na Unicap)

     

    Lucas, cinco anos, é um garoto que sabe como poucos se divertir com um tablet em mãos, mas não tem muitos amigos na escola. Guilherme, oito anos, também tem dificuldades de socialização. Mas seu problema é outro: tem alguns quilos a mais e sofre “na mão” dos colegas. Larissa, seis, também é humilhada na turma – tem o cabelo crespo. Bernardo, nove anos, mal vê os pais ao longo da semana. E, por isso, ganha preferência na hora de definir o destino da família nas férias. Estratégia semelhante é usada pela mãe solteira de Bárbara, oito anos, que não tem dinheiro para pensar em ir muito longe e, portanto, leva a filha para fazer unhas e alisamento no cabelo a cada quinze dias.

    Todos esses nomes citados são fictícios. Mas a fantasia para por aí: cada uma dessas histórias é tão real quanto os milhões de crianças e adultos anônimos que enfrentam os desafios de fazer parte de uma sociedade pautada pelo consumo. Um mundo em que itens à venda são símbolos de poder e, portanto, objetos de cobiça. Nesse contexto, criar filhos e convencê-los da ascendência do “ser” sobre o “ter” pode se revelar uma tarefa complicada para os pais. Que tem sido ainda mais dificultada à medida em que se expandem as mídias e, consequentemente, a propaganda – especialmente aquela que enxerga nos Lucas, Guilhermes, Larissas, Bernardos e Bárbaras consumidores em potencial. Ou de imediato, mesmo.

    Especial: Publicidade infantil

    Essa avidez das marcas para cativar seu público desde cedo faz todo o sentido. Segundo estudo de 2011 feito em onze países – entre eles, o Brasil – pela Viacom International Media Network, distribuidora do canal Nickelodeon, 97% dos pais com filhos entre seis e quatorze anos disseram conversar com a prole antes de sair às compras. E 91% admitiram que o diálogo é iniciado não por eles, mas pelas crianças. Até quando se trata de adquirir um carro novo, 60% dos pais confessaram ter sido influenciados pelos filhos. À mesma pesquisa, 80% destes, por sua vez, declararam ter a Internet como principal fonte de busca por produtos, enquanto os comerciais de TV foram a resposta de 70% deles à mesma pergunta. Números que mostram como a curiosidade, a facilidade no aprendizado ou até a influência das crianças sobre a família têm sido manipuladas pelos anunciantes, em todas as mídias.

    Promotores de vendas

    “A criança está absorvendo o argumento da publicidade e o está transformando em discurso próprio”, alerta a professora Janaína Calazans, coordenadora do curso de Publicidade na Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) e mãe. “Um dia, eu cheguei em casa e disse que ia fazer feira. Aí meu filho disse ‘faz, faz, faz Carrefour’ (jingle da rede). Você olha para a criança de sete anos e diz ‘onde tu escutaste isso?’”, relembra, dando ênfase ao espanto que a fez, então, se questionar. “O que o Carrefour está fazendo anunciando num canal como o Discovery Kids? É um público que não vai ao supermercado, não faz feira. Mas, de alguma forma, influencia”, comenta.

    Janaína conta esse causo com o humor e a tranquilidade de quem tem consciência: sua realidade é parte de um contexto muito maior. “A criança está sendo exposta não só à publicidade, mas a coisas que não são condizentes à idade dela. E você está lavando as mãos porque tem mil coisas para fazer, mas não está prestando atenção”, salienta, antes de fazer uma ressalva: a responsabilidade por essa vulnerabilidade infantil deve ser dividida entre alguns atores. “A gente precisa ter muito cuidado, porque às vezes se tenta encontrar culpados quando a culpa está na própria sociedade. A culpa é dos pais? Não, mas é da publicidade? Também não”, afirma.

    Colega de Janaína na Unicap, Gabriela Rocha é publicitária, professora, consultora e mãe de um filho de três anos. E, como Janaína, verifica os efeitos de sua profissão sobre as crianças na prática, dentro de casa. “Primeiro, é um público extremamente fácil de persuadir. E segundo, é um público multiplicador. A criança escuta e repete em casa, para as pessoas. É um público que tem forte poder de influência”, explica. Exemplifica: “Eu adoro TV, e é um dos vícios que eu infelizmente transmiti para o meu filho. E eu vejo meu filho repetindo o slogan que ele escutou na TV, cantando jingles. Isso está me fazendo me questionar onde essa criança vai parar, porque já está começando a pedir”, revela. Apesar disso, ela também faz questão de dividir essa culpa. “A publicidade reflete essas mudanças de valores na família. É difícil dizer quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha: se a publicidade está repercutindo algo que acontece dentro da família, ou se a família está reverberando um discurso publicitário”.

    Regulamentação

    Esse sentimento experimentado por Janaína e Gabriela também é compartilhado pelo advogado Gustavo Andrade. Além de ser pai, ele representa no Recife a Rede Brasileira Infância e Consumo (Rebrinc), que atua desde junho de 2013 no sentido de alertar a população para os aspectos negativos da publicidade dirigida às crianças e denunciar abusos. “Não é raro os pais se sentirem culpados por não poderem participar do dia a dia dos filhos como queriam ou acham que deveriam. E a compensação vem, quase sempre, representada por bens materiais. Na disputa com os pais, a indústria publicitária se sagra vencedora na maioria das vezes, já que passa muito mais tempo com as crianças do que aqueles”, elucida. Por isso, ele crava: só há um caminho para proteger a infância do assédio da propaganda. “Julgo necessária uma regulamentação”, pontua. Janaína, por sua vez, é ainda mais enfática. “Não devia ser autorizada nenhum tipo de propaganda para criança”, dispara.

    A opinião de Gustavo e Janaína é baseada na experiência de democracias que já restringiram a publicidade infantil. Países como Suécia, Canadá, Inglaterra, Estados Unidos e Alemanha, entre outros, possuem regras bem definidas do que pode ser veiculado para crianças. Na Noruega, por exemplo, é proibida qualquer propaganda direcionada a menores de 12 anos, assim como a exibição de qualquer comercial durante programas infantis. “A proteção à criança no Brasil, mais do que uma necessidade, é um comando constitucional. A educação para o consumo é importante, mas a proteção deve se dar sempre. A criança não tem completado seu ciclo de formação intelectual, carece de experiências e até de discernimento para efetuar suas escolhas de consumo, necessitando, por isso, de especial proteção”, defende o advogado.

    No Brasil, as restrições sobre a publicidade infantil são suaves. Além do artigo 37 do Código de Autorregulamentação Publicitária, que tenta tratar o assunto a partir de definições do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), há ainda a resolução 163/14 do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, que declarou abusivo qualquer anúncio direcionado para o público infantil. Essa determinação tentou ser abrangente: proibiu propagandas que se utilizem de linguagem infantil, efeitos especiais ou excesso de cores, representação da criança, trilhas sonoras cantadas por crianças, celebridades do universo infantil, bonecos, entre outros critérios. Mas como não tem força de lei, a orientação do Conanda vem sendo ignorada pelos anunciantes.

    Nesse cenário de regras tenras para anúncios ao público infantil, muitos enxergam perspectivas de futuro sombrias. Para Janaína, ele tem provocado “um processo de adultização da infância, um consumismo exacerbado e doenças como depressão e obesidade”. Gabriela também enxerga o desenvolvimento de uma geração de adultos consumistas. “A gente vai causar um problema ainda maior para a sociedade. Consumindo mais, vamos gerar mais lixo; com mais lixo, mais poluição. Vamos ter muito mais problemas relacionados à convivência”, antevê. Gustavo concorda e vai além: cita ainda o crescente impacto desse consumismo no orçamento familiar. “A publicidade incita a ansiedade para consumir, a valorização excessiva do status social e, em alguns casos, adultização e erotização precoces. Outro impacto de grande importância e que vem sendo negligenciado é o que se dá no superendividamento das famílias”, ressalta.

    Conflitos

    Esse poder de persuasão das crianças sobre os pais é crescente. E para o psicanalista Pedro Gabriel Fonseca, professor da Faculdade Pernambucana de Saúde, é um problema mais urgente do que a permissividade da legislação no país. “Há que se perguntar, antes: por que as crianças mandam nas casas? Por que são espécies de majestades, que determinam tudo com seu grito, com sua insatisfação”, alega, fazendo referência a um artigo de Freud sobre o narcisismo em bebês. E emenda: para ele, a questão central está no modelo-padrão de vida na sociedade contemporânea. “O problema, me parece, não é a publicidade para crianças, mas sim a vida transformada em consumo – para adultos e crianças. E se se opta por essa vida de consumo, então que as crianças já estejam nesse mundo desde cedo”.

    O mundo de consumo a que Pedro se refere é veiculado em telas e outras mídias analógicas, e tem sua expressão maior na propaganda. Que, para ele, é um fator que tolhe a essência das pessoas e se aproveita de uma fraqueza do próprio ser humano. “Pelo fato da gente ter esse vazio que nada preenche, vem a publicidade e diz que se você comprar um iPhone, preenche. Quando você compra, não preencheu. Mas é porque você comprou o 6… tem que comprar o 7. Essa mentira, de uma série que não termina, se apega a esse vazio fundamental. E o fim dessa série é o sujeito desaparecer e virar um apêndice da marca”, sacramenta.

    Também psicanalista, Bibiana Poggi tem se dedicado ao estudo do impacto das telas sobre as crianças. Membro da Escola Brasileira de Psicanálise e da Associação Mundial de Psicanálise, ela faz coro às críticas de Pedro: há muitos pais despreparados. “Quando, por exemplo, você está com um bebê no restaurante, e em vez de estar conversando com ele ou distraindo, coloca uma tela para ele assistir Galinha Pintadinha, acabou. A tela pode fascinar, deixar a criança completamente passiva, e pode também inquietar, agitar. Se elas não encontram um bom interlocutor, a quem elas possam dirigir essa inquietação, essa fascinação… que adultos a gente vai ter? Deixá-las soltas perante as telas, onde prevalece o imaginário, é um risco”, avisa.

    Por conta desse risco, ambos os profissionais estão de acordo que o Estado tem parcela de culpa pela ofensiva da publicidade sobre o poder de compra direto e indireto das crianças. Mas para os dois, a responsabilidade maior será sempre de quem toma conta delas. “É muito comum a gente querer responsabilizar o Estado e não se responsabilizar. É claro que ele tem sua culpa. Mas em relação aos rumos que uma vida toma, isso compete aos pais”, argumenta Pedro. Bibiana concorda. “Eu acho que as leis precisam existir, as regulamentações, o Estado precisa fazer o papel dele. Mas nada disso poderá substituir o papel de pai e mãe”, avalia.

  • Quinze minutos com Givanildo

    Quinze minutos com Givanildo

    Texto originalmente publicado na edição #3 da Revista Corner

    Quinze minutos podem ser quase nada, ou uma eternidade, dependendo do contexto. É bem apertado, por exemplo, para sair de Olinda de carro e chegar ao Centro de Treinamento do Náutico, no bairro da Guabiraba, zona Norte do Recife. Para resenhar com alguém que tem 599 partidas com a camisa do Santa Cruz, e mais dez pela Seleção, além de boas temporadas a serviço de Corinthians e Fluminense, então, é um intervalo ínfimo. Mas para entender quem é e como pensa Givanildo Oliveira, quinze minutos na companhia dele é tempo até de sobra.

    Por trás do semblante sério e enxuto que o técnico mostra diante das câmeras, não há absolutamente nada. Givanildo é um sujeito uno. É exatamente o que aparenta ser: um homem franco, que sabe onde pisa e tem consciência plena do valor de seu trabalho. Um profissional vitorioso, que conquistou a admiração de torcidas imensas sem jamais perder a simplicidade. Um eterno inquieto que, aos 68 anos, se considera realizado, mas dá cada treino como se fosse o último e não abandonou o hábito de traçar metas e sonhar.

    Às vésperas de um jogo decisivo do Timbu pela Série B de 2016, contra o Atlético Goianiense, dava para ver que Givanildo estava fazendo um sacrifício para receber a Corner. Ele é daqueles que não têm, nunca, tempo a perder — sobretudo quando o líder do campeonato era o próximo adversário. Mas a pressa para iniciar os trabalhos da tarde logo foi deixada de lado pelo técnico, que respondeu a todas as perguntas com a calma e a franqueza que o tornaram uma das figuras mais admiradas do futebol brasileiro — exceto no Sul e Sudeste, onde seu carisma se resume ao folclore.

    Em vez de se falar sobre o trabalho que desempenhava à época da entrevista, era preciso ter tempo para falar da trajetória de alguém que empilhou taças como atleta e técnico, mas cujas maiores conquistas foram fora dos gramados: mostrar que o nordestino não precisa se curvar para ser aceito, nem no futebol e nem na vida. Basta manter-se fiel à sua essência.

    Como foi sua infância e sua relação com o futebol?

    Eu era peladeiro, como era normal na minha época. Isso pelos anos 1965, 66. Eu fui pro Santa Cruz já era 68, já estava com 19 anos, perto de estourar a idade de juvenil, como se chamava na época. Minha vida foi lá em Olinda mesmo. Peixinhos, Vila Popular, onde eu nasci. Tinha muito campo de pelada na época. Naquela época tinha muito. Eu era o verdadeiro peladeiro mesmo. Tanto é que fui fazer o teste no Santa Cruz e passei.

    Como foi o início no futebol profissional?

    Comecei na base do Santa Cruz, fui aprovado, joguei, disputei um campeonato juvenil. Acabou esse campeonato, chegou agosto, que é quando eu faço idade. Estourei a idade, fiz 20 anos. E em seguida, no ano seguinte, disputei o campeonato de aspirantes, até ter a chance como profissional. Desde essa chance que me deram, eu entrei, fui bem, e acabou-se, nunca mais saí do time. O técnico era Gradim.

    Teve algum treinador nordestino como referência?

    Não tive. Na época é que não tinha mesmo. Hoje tem alguns por aí, espalhados, mas na época mesmo, era a maioria de fora. Eu tive Gradim, depois veio Duque, depois veio Evaristo de Macedo, Paulo Emílio, tudo de fora. Não tinha nordestino, não.

    Quais são as dificuldades que os técnicos nordestinos enfrentam?

    A dificuldade é a que encontra um engenheiro, um advogado, um gerente de banco que é do Nordeste. Pra chegar lá, é difícil. É difícil você ver um engenheiro daqui numa obra em São Paulo, mandando. É muito complicado. Melhorou muito essa parte, mas antes era pior. Porque, voltando pro futebol, hoje, você encara. Antigamente, contra um Flamengo, um São Paulo, times do Rio ou de São Paulo, você jogava pra perder de pouco. Hoje, não. Faz um tempo que mudou. Você encara. Têm algumas vantagens? Têm, mas você encara qualquer um deles. Ou aqui no Recife ou lá fora. Então, essa parte mudou. Mas esse lance do treinador, não tem como mudar, isso é muito complicado. Porque se aqui aparece um treinador, de repente ele começa a ir pra cima. É difícil um time lá do Sul vindo aqui. Aí vem time de Manaus, de Belém, do Ceará… mas pra um time de ponta de São Paulo chamar um treinador nordestino, é muito difícil.

    Você acha que a questão do sotaque dificulta?

    Não, porque o sotaque deles é uma porcaria também. Não tem nada a ver. Eu tive um problema uma vez, quando eu jogava ainda, o cara veio de gozação comigo pra falar porque tinha um bairro com nome de Arruda, outro com nome de Águas Compridas. Aí eu disse a ele, “vem cá, e aqui, Tatuapé? Anhangabaú? Tu quer falar o quê?” Ele calou-se e não falou mais nada. Quer dizer, não tem nada de sotaque. O que tem aí é o lado que você nasce.

    É mais fácil triunfar com um sotaque do Sul, como o gaúcho, por exemplo?

    Você falou em gaúcho. Quantos gaúchos? Felipão foi seleção brasileira. Tite, Mano, e muitos por aí afora. Isso é uma coisa natural deles. O nordestino sempre foi assim. Ele sempre foi olhado de lado. Em tudo.

    Quando você foi jogar no Corinthians, enfrentou preconceito?

    Eles [os paulistas] hoje ainda têm, só que antes era bem pior. Tem um bairro lá, que eu ia de vez em quando, onde eu tinha um amigo que tinha negócio, que se chama Brás. É onde fica a nata dos nordestinos. Todos os paulistas só chamavam de “paraíba”. Você podia ser baiano, pernambucano, do Rio Grande do Norte, e chamavam de “paraíba”.

    Nem quando foi jogar no Fluminense?

    No Fluminense, não, porque eu já estava até com uma idade mais avançada. Mas não teve discriminação. A palavra é discriminação. Isso aí existe. Mas felizmente, no Fluminense, essa parte não me atingiu, não.

    E na Seleção?

    Também não, porque inclusive eu fui convocado quando jogava no Santa Cruz, só que em seguida, o Corinthians me contratou. Então, eu jogava já no Corinthians, não senti nada não.

    Algum jogador que você comandou já debochou do seu sotaque ou do fato de você ser nordestino?

    Não. E nenhum é maluco não. Porque tá fora na hora.

    Você considera que sempre teve o respeito da imprensa?

    A imprensa, nem tanto. Você quer um caso?

    Por favor…

    Eu fui pra seleção, essa seleção era convocada todo mês. E todo mês tinha um amistoso. Quer dizer, passou o ano todinho sendo convocada e eu não entrei nem 20 minutos. A maioria entrou e eu fiquei na minha. Aí veio o Torneio Bicentenário, nos Estados Unidos. Fomos pra lá. Fizemos o primeiro jogo com a Inglaterra. Aí fomos para o segundo jogo contra os EUA, Falcão machucou faltando vinte minutos, eu entrei. Aí já arrebentei com o jogo. O próximo jogo, Itália, era o jogo final para ver quem era o campeão. No intervalo do jogo, mandaram me chamar lá em cima. Falcão não aguentou o tornozelo, aí eu entrei no jogo. Estava 1 a 1 o jogo. Nós ganhamos de 4 a 1 e fomos campeões. Depois desse jogo, nós tínhamos ainda três amistosos por lá, inclusive no México. Teve um em San Francisco, o penúltimo antes de vir embora pro Brasil. San Francisco estava muito frio e a gente ainda ia ter um treino na véspera do jogo. Eu fui para o café todo empacotado, acabei o café e eu fui para o hall do hotel lá. Sentei numa poltrona e fiquei. Tinha sido campeão do Bicentenário. Aí o que aconteceu… Você não lembra porque é muito novo, mas veio um cara que era um dos grandes do jornal, Solange Bibas. Veio Kléber [Leite], do Rio, que já foi presidente do Flamengo. O outro foi um tal de Jânio Quadros, era o nome do cara. Eu tô lá sentado, muito frio, esperando a hora de sair. Vieram os três. Aí chegaram “e aí, tudo bom?” Eu disse “tudo bem”. Eles falaram assim: “você não fala com a gente?” Eu disse: “Êpa! Eu não falo com vocês não, vocês que não falavam comigo. Estão falando agora porque eu joguei e fui campeão. Agora, vocês nunca me procuraram. Eu falo todo dia com a imprensa. Sabe com quem? Com um repórter lá do Recife, que acompanha aqui. Todo dia eu falo com ele. Agora, vocês nunca me procuraram. Então, não venham me dizer que eu não falo com vocês, não”. Aí ficaram tudo murchinho lá, tudo quietinho. Então, tem que ter a resposta, tem que ter na hora.

    Enquanto treinador, como foi sua experiência no futebol paulista?

    Eu não trabalhei no Guarani, eu passei no Guarani. Eu fiz três jogos, dezessete dias. Não dá. O cara era, sempre foi, de querer escalar, quis escalar meu time e eu disse “pode ficar com seu time que eu vou-me embora”. Então, eu passei. A Ponte, não. A Ponte eu fui uma vez, tirei do rebaixamento, estava lá em último lugar. No ano seguinte, estava de novo em penúltimo lugar, eu fui e livrei de novo. Esse trabalho meu foi, assim… E no Bragantino também, eu trabalhei.

    Sentiu preconceito como treinador?

    Como treinador, vale ainda a discriminação, até hoje. Porque com tudo que eu já fiz no futebol, eu nunca recebi um convite de um time de ponta. Nunca. Então, quer dizer, tem discriminação, com certeza.

    Muitos dizem que seu jeito simples e direto desmistifica muitas das teorias e estratégias do futebol. Concorda?

    Eu não posso nem dizer isso aí, porque se eu falar isso… Eu sou contra a teoria. E eu acho que a teoria também está dentro do futebol. A prática, em primeiro lugar. É quando eles entram no campo, pra jogar. Ali é a prática. Agora, a teoria é válida. É o que você mostra num quadro, escreve, aí é a teoria. Mas até o momento de chegar e fazer, é onde está o nome: jogo. Futebol é jogo, e jogo é difícil de você prever. Porque você fala do adversário, você explica, e daqui a um pouco o adversário entra em campo e vem diferente em alguma coisa. Você corre pra tentar mudar o posicionamento. Então, o posicionamento do futebol hoje é esse. Não tem muito segredo, não. A gente está jogando aqui, agora muda de vez em quando. Por exemplo, a maioria dos times hoje joga com dois pelos lados, um enfiado e um meia. Antes, eram dois meias. Então, é a maioria hoje. Só que eu fui campeão duas vezes pelo América jogando com três zagueiros. Aí muda tudinho. Então, é o momento do clube, das peças que você tem. Você não podia estar gravando aqui se esse celular estivesse quebrado. É o momento, é a peça que você tem, procure encaixar. Agora, você não pode prever nunca. Eu já tive uma vez, uma figura que chegou pra mim e disse assim “você vai jogar contra tal time, e o treinador de lá já trabalhou aqui. E ele é o seguinte: o time dele, com vinte minutos de jogo, tem que estar 2 a 0”. Eu disse: “não, peraí, não entendi”. “O time dele, ele treina pra quando estiver com 20 minutos de jogo, ele tem que estar ganhando de 2 a 0”. Eu disse: “se ferrou comigo”. Aí ele, “por quê?”. E eu disse “porque o meu, com dez minutos, vai fazer três, aí eu tô ganhando de 3 a 2”. É complicado, como o cara pode prever que vai estar ganhando? Então o futebol tem umas histórias, umas coisas, que não tem isso, não. Fora disso que a gente tá conversando, quando aparece essas coisinhas, é invenção. É invenção. Futebol é prático, é direto, é as peças que você tem. Você lida numa competição com machucão, com expulsão. Agora mesmo, nós fizemos um jogo com Ronny e Vinícius fora, que são dois jogadores que estão muito bem. Tudo isso acontece. Tinha um jogador aqui, antes de eu chegar no Náutico, Maylson, que vinha arrebentando. O Gallo [ex-técnico] perdeu ele. Quer dizer, são situações que a gente tem que encarar. Por isso que eu estou falando de grupo, e grupo é muito importante. Treinador é? É sim, é. Agora, o grupo é que vai ajudar e muito.

    Qual você diria que foi sua missão no futebol, como jogador, treinador e nordestino?

    Minha missão no futebol era ser vencedor. Essa missão que a gente acabou de falar, de nordestino, eu não consegui. Lutei muito, mas não consegui. Não sei se ainda vai dar tempo, não sei. Mas no futebol, não. Eu joguei 14 anos. Eu consegui jogar até os 34 anos, naquela fase que ninguém conseguia. Nenhum jogador… nenhum não, estou exagerando. Mas poucos jogadores passavam de 30 anos, 28 anos, por aí, e paravam. E eu fui até 34 anos, e ganhei 14 títulos, em 14 anos jogando. Porque teve ano que eu ganhei dois. Quer dizer, você joga 14 anos e ganha 14 títulos, é um vencedor. Eu hoje me dou o prazer de ter seis acessos. Que é difícil, ninguém tem. De estadual, eu tenho uma porrada. Só aqui em Recife, são cinco. Vai para Belém, são oito. Vai pra Maceió, são dois, CRB e CSA. América, um. Quer dizer, eu me considero um vencedor.

  • Entrevista: André Henning, a voz do Esporte Interativo

    Entrevista: André Henning, a voz do Esporte Interativo

    Texto originalmente publicado no Doentes por Futebol em 23 de janeiro de 2016.

    Desde 2007, o Esporte Interativo vem provocando uma gradual – e consistente – reorganização no mercado das transmissões esportivas no Brasil. E nada personifica melhor o atrevimento do canal de se lançar em um setor tão concentrado do que a careca reluzente e a voz marcante de André Henning.

    Nascido em Guarulhos (SP), criado na Europa, mas soteropolitano convicto, André é o principal locutor do canal que hoje é dono exclusivo dos direitos de transmissão da Liga dos Campeões no país. Ele esteve no Recife para narrar Santa Cruz e Flamengo, pelo Troféu Chico Science, no último domingo. E, na véspera da partida, teve uma bem humorada conversa com a reportagem do Doentes por Futebol, no saguão do hotel onde se hospedou.

    Ele não mediu o tempo ou as palavras. Sem pressa, falou sobre quase tudo. Do berço jornalístico – é filho de Hermano Henning, correspondente internacional da Rede Globo por mais de uma década, entre outros veículos – a suas influências e o exercício da profissão de narrador.

    Respondeu também às críticas ao tom adotado nas transmissões do Esporte Interativo e comentou sobre a revolução provocada pela Copa do Nordeste, principal produto doméstico do canal – que, para ele, está fazendo a região “voltar a ser referência em um momento delicado, em que está difícil encontrar referências”. Só hesitou na hora de apontar um favorito ao título da Lampions. “Juro que não sei”, garantiu. Confira a entrevista exclusiva:

    Quais são suas referências de narrador esportivo?

    Na locução esportiva, eu tenho dois caras que me influenciaram muito, que são os que eu cresci ouvindo. No rádio – a minha primeira paixão –, Osmar Santos. O bichinho me picou com ele. Começou a me fascinar a narração esportiva do rádio, aquela coisa de convocar torcida, ouvir o barulho da torcida. Comecei a gostar de futebol ouvindo rádio. E o Galvão Bueno. Desde o começo dos anos 80, não sei por que razão, comecei a gostar do cara. Eu morava em Salvador e ele ia lá narrar jogos. E meu pai, por trabalhar na Globo, na época conseguia me levar na cabine, e eu ficava lá com ele. Eu tenho esses dois como referências.

    De seu tempo como repórter de rádio, o que você levou de aprendizado?

    Muita coisa. Se todo mundo pudesse ter passado pela experiência de transitar por todas as fases de um jornalista esportivo, seria bom. Porque você aprende muito das dificuldades que as outras pessoas têm. A hora de chamar as outras pessoas, o que você pergunta para cada um. Você sabe o tipo de acesso que o repórter tem, porque tem coisas que você pergunta e ele não vai saber. Você ter passado por todas as áreas dá uma bagagem bem interessante. Eu sou um melhor narrador por ter passado pela reportagem. Eu entendo o repórter, valorizo o repórter, coisa que às vezes quem pensa só na narração acaba deixando passar batido. Eu fui plantão, operador, gravei comercial, chamada. Caminhei uma estrada bacana.

    Como seu pai influenciou na sua escolha por uma carreira no Jornalismo esportivo?

    Pouca gente sabe, mas meu pai, no começo da história dele do rádio, chegou a fazer rádio esportivo, em Guarulhos, por pouco tempo. A grande influência dele foi a paixão pelo rádio. Meu pai ainda é um grande ouvinte de rádio AM. Então, principalmente por termos morado fora do Brasil e de São Paulo por muito tempo, nosso contato com o Corinthians, nosso time, vinha muito pelo rádio.

    No exterior, meu pai sintonizava ondas curtas para poder ouvir a Bandeirantes AM, a Gaúcha, rádios que eram fortes em ondas curtas e que você consegue até hoje ouvir no exterior sem precisar da internet. Quando me mudei para Salvador, era uma maneira que eu tinha para entrar em contato com meu time. Eu ouvia futebol pelo rádio incentivado pelo meu pai. Ele dizia: “você sintoniza os 1000 kHz da Record, tem uma grande frequência, com 200 kW de potência, à noite vai chegar melhor o som”, etc. Foi esse tipo de conversa com ele que me despertou a paixão pelo rádio. Hoje é muito fácil. Mas ele não se acostumou, continua ouvindo chiado (risos).

    Quais as qualidades necessárias para um bom narrador?

    Eu acho que é dom. Não é qualquer um que consegue aprender a narrar. Pelo menos aprender a narrar de uma forma que você tenha sucesso. Acho que fazer o meio-campo você consegue, dá para ensinar o básico. Mas para uma pessoa estourar, tem um algo a mais que eu não sei explicar. O básico, principalmente, é saber tudo o que gira em torno do evento que você está narrando. O Esporte Interativo, por exemplo, tem três canais. Se você vai narrar um jogo, precisa saber os eventos que esses canais estão transmitindo, o que está acontecendo naquele momento em outro canal. Eu preciso ter o domínio total do que cerca as coisas que podem cair no meu colo. Pode acabar a luz do estádio e eu ter que passar para outro canal. Se eu não tiver o domínio dessas coisas, eu fico a pé.

    Então, usando as palavras de Galvão Bueno, “vender emoção” só é possível tendo o conteúdo como alicerce?

    Se você não estiver seguro da informação para soltar a emoção, você está roubado. Primeiro vem a emoção, mas… e aí? Você narra um gol do Guerrero. Se você não souber que ele está sem fazer gol há seis meses, não souber que ele foi contratado por um monte… cadê a emoção? Vai ser simplesmente o gol, que é emocionante, mas isso eu consigo ensinar para todos os outros. Mas ir buscar isso na hora, fazer a ligação, sentir que ele foi dar um abraço no Muricy, por exemplo. Isso é que vai ser o diferente.

    Sempre lembro quando fui narrar um jogo do Schalke 04, e aí aparece uma faixa em alemão que passou batida para muita gente e eu dei sorte porque conheço o idioma. Ela dizia “Eu acredito em milagres”, e estava escrito 58 na faixa. Se eu não sei que desde 1958 o Schalke não conquista o campeonato alemão, passou batido. Então, a informação é a base, e na hora que a bola rola é emoção total.

    É essa emoção que tem feito o Esporte Interativo crescer?

    Também. No Esporte Interativo, a transmissão dos programas é o final de uma história movida a emoção. Então, quando a gente vai fazer um jogo, a empresa inteira está envolvida nisso, a gente está batalhando por isso, qualquer jogo que seja tem o envolvimento de muita gente que é apaixonada pelo esporte. Não é só um simples jogo. A gente se envolve com a história, somos todos apaixonados pelo esporte. Então, o fato do EI ter escolhido essa forma de transmitir futebol e esporte de uma forma geral é o que nos faz diferente. Liberar a emoção nos aproxima do torcedor, do cara “comum”, porque a paixão nos une. A mesma paixão que o cara vendo o jogo tem, a gente tem.

    Algumas pessoas reclamam de aspectos das transmissões do EI, como gritos em excesso, por exemplo. Como vocês lidam com esse tipo de críticas?

    Eu interpreto de duas formas. Uma: não agradaremos a todos. Isso é fato. Não sou religioso, mas nem Jesus Cristo agradou. Eu acho que a maioria dos que dão uma chance, com o coração aberto, gosta. Tem gente que não vai gostar mesmo, e aí paciência. E que bom que o cara tem outras opções para ter uma narração “sóbria”, mais tranquila. Tem para todo gosto. Pode até ver o jogo sem narrador, conseguindo um link na internet.

    O outro ponto, que eu acho um pouco injusto, é o da gritaria. Fica parecendo que a gente começa uma transmissão sem falar nada que faça sentido. Não é isso. A gente transmite em um tom diferente. Não faz uma transmissão de gritaria. É realmente mais alto, mais intenso, e não vai agradar a todo mundo. A torcida também é mais alta. Outro dia, um cara falou: “ainda não entendi esse negócio de emoção e gritaria”. Pois é, tem gente que se emociona chorando, correndo, dando cambalhota. Essas coisas são inexplicáveis. Mas dizer que nossa transmissão é só gritaria é uma grande injustiça.

    Sobre essa briga pelos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro envolvendo Esporte Interativo e Globo, o que você tem a dizer?

    Basicamente nada, porque realmente a gente não sabe de nada. Imagino que seja assim em qualquer lugar. Isso é uma briga de gente grande, à qual eu não tenho acesso. Eu sei o que eu leio, e não sei nada além disso. Esquecendo um pouco os nomes Esporte Interativo, Globo, seja lá qual for a emissora, eu acho que a competição é saudável. O mercado livre é o melhor que tem. Então, que tenham opções.

    O futebol vive uma relação com uma emissora há muito tempo, com méritos. A emissora tem muitos méritos em estar aí há tanto tempo sendo parceira do futebol brasileiro. Mas continuo achando que o livre mercado é melhor. Se ela ganhar de novo, parabéns, tomara que seja o melhor para o futebol. Se ganhar outra que não o EI, tomara que seja melhor para o futebol, para o torcedor, para todo mundo. O monopólio não é bom em lugar nenhum. Do jeito que é feito hoje, não tem como discordar de que é monopólio. É só olhar e ver que uma emissora transmite a Seleção Brasileira desde que eu me entendo por gente.

    E em relação à dificuldade do Esporte Interativo em entrar na grade das TVs por assinatura, o que você pensa?

    É outra que eu falo como cliente. É outra briga de gente grande, e que eu não tenho nem a sensibilidade de me meter, porque se eu fosse me meter, daria errado (risos). Então, que bom que a gente tem pessoas para isso, eu não teria muita paciência. Eu sou cliente de uma operadora que não oferece o EI. Eu ligo e reclamo. Eu acho uma sacanagem, com o perdão da palavra, privarem o torcedor de ver a final do Mundial de Handebol, acho uma sacanagem o cara não poder ver a Liga dos Campeões, a Copa do Nordeste. Acho uma sacanagem o cara pagar 235 canais, sendo que ele vê cinco ou seis, e não consegue ver o conteúdo que ele quer porque existe algo maior. Existe algo que a gente não sabe, mas sabe. Eu, como cliente, dei um ultimato na minha. Eu vou mudar e vou buscar outras alternativas. Até hoje, eu vejo pelo EIplus. O cliente tem esse direito e é ele que vai vencer essa barreira, ninguém mais.

    Quanto à Copa do Nordeste, quais são suas expectativas?

    Vão ser algumas semanas interessantes, de muito trabalho. Se eu tivesse cachorro, não conseguiria entrar em casa (risos). Está todo mundo vendo o sucesso da Copa do Nordeste. A cada ano, repercute mais, dá mais resultado, vira referência. A gente está vendo o pessoal tentando descobrir o que foi feito aqui para replicar lá. Já deu uma volta bacana. O Nordeste voltou a ser referência. Aqui no Nordeste, a gente sempre foi referência no futebol – e eu me considero porque sou soteropolitano, fui criado em Salvador. E estamos voltando a ser. Num momento delicado, em que está difícil encontrar referências. Eu vejo a Copa do Nordeste chegando com força, estou muito animado.

    Está animado também para a fase final da Liga dos Campeões?

    Se a gente pudesse ter ido lá e sorteado as bolinhas, talvez não tivesse conseguido definir confrontos tão legais. Chelsea e PSG, Real Madrid com técnico novo, Arsenal e Barcelona… os ingredientes estão aí, e os confrontos também. Acho que vai ser bacana. A gente tem vários jogos exclusivos. Acho que mais torcedores vão ter a chance de ver essa reta final e estamos preparando uma cobertura daquelas. A gente vem aqui para o Recife para fazer Santa e Bahia (pela 1ª rodada da Copa do Nordeste) e, daqui, embarca para a Europa, para fazer PSG e Chelsea. Vamos fazer uma cobertura bacana, como a gente já vem fazendo, para que essas duas competições tenham um tratamento rigorosamente igual.

    Arrisca algum palpite de campeão da Copa do Nordeste?

    A gente devia pegar os finalistas e usar como referência. O Ceará está se remontando. Perdeu muita gente, mas tem a força da torcida, um técnico que, se encaixar o estilo dele – e parece que encaixou –, é duro segurar. O Bahia, que teve um trauma grande de não voltar à elite, ainda mais com o Vitória voltando. Só que o Vitória não joga a Copa do Nordeste, então é um semestre para o torcedor tricolor deitar e rolar. O Sport, o único que estava na Série A… juro que não sei. Ainda aparece um Campinense, um ASA. Tem muito time que não jogou Série A e B, começa a pré-temporada mais cedo e chega voando.

    E na Liga dos Campeões, dá para apontar algum favorito?

    É mais fácil porque tem o Barcelona, que é o time a ser batido. Mas eu não descartaria o Real Madrid com essa mudança de técnico, e nem o Bayern de Munique. Eu particularmente torço para o Guardiola conseguir dar uma Champions para o Bayern, seria legal. Sou fã do Guardiola, torço pelo sucesso dele e gostaria de ver ele dar um título europeu para o Bayern. Mas vão ter que correr atrás do Barcelona. É o favorito, não tem jeito.

     

  • Para a CBF, queda de Dilma representa “ponte para o futuro”

    Para a CBF, queda de Dilma representa “ponte para o futuro”

    Artigo publicado originalmente no site Doentes por Futebol (Foto: Reprodução)

    Já é concreto: por 180 dias, a presidenta eleita Dilma Rousseff desocupa seu cargo. É removida para dar lugar a Michel Temer. Sua saída significa uma catarse para os setores da sociedade que tanto sonharam com esse momento, assim como provoca um profundo suspiro de alívio entre as dezenas de parlamentares investigados que promoveram sua queda. É bem provável, no entanto, que a maior festa pela interrupção do governo da petista esteja ocorrendo bem distante de Brasília. Mais precisamente, na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro.

    Se nos últimos tempos tinha alguma coisa faltando na faraônica sede da Confederação Brasileira de Futebol, era notícia boa. Atolada em escândalos internacionais e investigada por uma CPI no Senado, a entidade vinha vivendo os anos mais tempestuosos de sua história, marcados por renúncias e prisões de seus principais dirigentes. Nesta quinta-feira, porém, eles acordam com um sorriso estampado no rosto, após a queda de quem vinha se mostrando, senão uma inimiga, alguém nem um pouco interessada em fazer concessões.

    Entre os tantos erros do governo Dilma Rousseff, seu grande acerto talvez tenha sido justamente essse distanciamento em relação à cúpula da CBF. A presidenta nunca mostrou qualquer simpatia às figuras que chefiaram a entidade durante seu mandato. Mas as inúmeras saias justas e divergências pessoais certamente não foram o motivo maior dos festejos no suntuoso Edf. José Maria Marin. A razão maior da alegria certamente é a esperança de dias mais tranquilos: se não dá para ter um refresco com o pessoal do FBI, o cenário doméstico se desenha muito mais favorável com a definição do impeachment.

    Entreveros

    Isso porque em mais de uma ocasião, a presidenta fez questão de se posicionar abertamente em campo oposto ao de Teixeira, Marin e Del Nero. Também não hesitou em acenar com medidas que enfraqueceriam bastante o poder da CBF. Por exemplo, lançou o nome de Ronaldo para a presidência do Comitê Organizador Local do Mundial de 2014. Depois, tentou garantir o refinanciamento de dívidas fiscais dos clubes somente para aqueles filiados a uma entidade que proibisse mais de uma reeleição – no que recebeu uma violenta patada do vice-presidente cebeefiano, Delfim Peixoto. Quando vieram à tona as investigações que levaram Marin para a prisão, Dilma não moveu uma palha para evitar que o dirigente fosse extraditado aos Estados Unidos, onde segue detido. Esses eventos serviram para criar um ambiente de pouco diálogo, que manteve a confederação em isolamento durante seu período de maior vulnerabilidade política, sobretudo após o 7 a 1.

    Só que aí veio o estouro da crise. Logo depois, a abertura do processo de impedimento da presidenta eleita. Diante disso, salvo poucas exceções, os principais veículos de imprensa do país adotaram um jornalismo quase que monotemático: todos os demais assuntos perderam a relevância ante a perspectiva da queda de Dilma. Para as raposas da CBF, foi o momento perfeito de agir.

    Após três meses afastado da presidência da entidade, Marco Polo Del Nero reassumiu o cargo no último dia 12, como quem não quer nada. Uma semana antes, o dirigente já havia driblado uma convocação para depor na CPI do Futebol, se valendo da sistemática sabotagem sobre a comissão. Uma prática que fez o senador Randolfe Rodrigues ser taxativo ao afirmar que o mandatário da CBF tem mais poder do que Dilma no Congresso Nacional. “Ele consegue barrar uma medida provisória editada pelo Executivo”, declarou ao UOL Esporte.

    Bancada na boa

    Enquanto a CPI do Futebol vive esvaziada, sem quórum para proceder suas investigações, a Comissão do Impeachment atravessou meses de trabalho intenso na Câmara. E nela, alguns dos nomes de maior destaque foram justamente deputados conhecidos por fazer parte da chamada “Bancada da Bola”: reunião dos parlamentares que costuma se posicionar a serviço dos interesses da CBF. Dos oito membros desse grupo, seis participaram da comissão – cinco deles, a favor da admissibilidade do impedimento, enquanto só Vicente Cândido, do PT-SP e sócio de Del Nero, foi contrário.

    Dois desses parlamentares tiveram papel especial nos trabalhos da comissão. Jovair Arantes, do PTB-GO e vice-presidente do Atlético Goianiense, foi o relator. E o mineiro Marcelo Aro, do PHS e diretor de Ética e Transparência da CBF (sim, esse órgão existe), foi protagonista em boa parte das sessões com discursos inflamados, sempre atacando a presidenta e pregando as boas práticas na gestão pública. Ambos foram personagens importantes para a aprovação do relatório que, posteriormente, seria votado e encaminhado ao Senado. Por isso, os dois chegam fortalecidos – assim como a entidade que costumam representar – ao interino Governo Temer que se inicia.

    Mas a situação da CBF não é melhor só por conta da atuação de Aro e Arantes. Entre os oito deputados da Bancada da Bola, apenas Vicente Cândido estará na oposição durante esse governo interino. Todos os outros sete são membros de partidos que apoiaram o impeachment da presidenta eleita e, portanto, terão ainda mais trânsito para seguir defendendo a entidade e seus dirigentes enquanto Temer for o presidente – até porque ele próprio sempre foi muito receptivo à causa cebeefiana.

    Sem escalas

    Em 2013, Michel Temer visitou José Maria Marin, então presidente da CBF, em sua residência. O encontro foi noticiado pelo site da entidade como se “um aliado de peso” tivesse sido conquistado, um interlocutor (enfim!) dentro do Poder Executivo. “Amigos há mais de três décadas”, conforme ressaltado pela matéria, os dois discutiram temas relativos à organização da Copa do Mundo, mas também selaram um pacto para que o então vice-presidente brasileiro tratasse de assuntos institucionais da confederação, de quem ele se colocou como representante junto ao Governo.

    Dois anos depois, o canal entre CBF e Presidência da República agora é direto. No Poder Legislativo, a entidade está ainda mais influente, contando com uma tropa de parlamentares mais fortalecidos do que nunca. Com toda essa blindagem política, fica bem mais fácil a vida dos dirigentes que, para evitar investigações, seguirão usando como alegação a natureza privada da confederação. Argumento que pode servir para frear a ação de uma Justiça pouco interessada, mas que continuará sendo pura falácia ante o caráter público do bem cultural imaterial que é o esporte mais popular do país.

  • Salida 8: um castigo para o futebol chileno

    Salida 8: um castigo para o futebol chileno

    Matéria originalmente postada no Doentes por Futebol em 2016.

    No Estádio Nacional de Santiago, que sediará diversos jogos e a grande final da próxima Copa América, está quase tudo pronto para o início de uma festa que o povo chileno aguarda com ansiedade. O campo ainda não tem a pintura necessária, mas a grama está em condição impecável. Entre a cancha e as arquibancadas, além do fosso, foram colocadas placas de acrílico – uma imposição da FIFA. Exceto em um pequeno setor atrás da barra que fica do lado oposto ao placar.

    Nesse espaço ínfimo em relação à capacidade total do estádio, o visual é bem diferente. Ao invés de acrílico, grades altas, com extremidades pontiagudas no topo. Em vez dos assentos vermelhos que predominam em quase toda a extensão das arquibancadas – resultado da última reforma, finalizada em 2010 -, as mesmas bancadas de madeira que foram colocadas em 1937, na inauguração do complexo esportivo. Um pedacinho de passado preservado, que resistiu às modernizações para que ninguém se esqueça dos horrores que o Estádio Nacional abrigou durante os meses finais de 1973.

    No dia 11 de setembro daquele ano, Salvador Allende, presidente eleito pelo povo chileno, deixava o poder e a vida, abrindo espaço para a consolidação do golpe de Estado promovido pelas Forças Armadas e encabeçado pelo general do Exército Augusto Pinochet. Com o país em estado de sítio, o aparato repressivo do governo ditatorial tinha total respaldo para realizar prisões em massa. E para abrigar os milhares de prisioneiros políticos capturados então, o local escolhido pela Junta Militar foi justamente o Estádio Nacional, que deixava de ser somente casa da seleção ‘Roja’ para se tornar também campo de concentração.

    O símbolo desse período negro da história do Chile, de sua seleção e de seu principal estádio é a chamada ‘Salida 8‘. Era desse setor das arquibancadas que entrava o único sopro de ar fresco para centenas de trabalhadores, artistas e estudantes – militantes ou não, incluindo também mulheres e crianças (!) – que eram mantidos prisioneiros na parte interna do estádio.

    Memória viva

    Entre esses presos políticos, estava Manuel Méndez. Às vésperas de completar 25 anos, o jovem trabalhava numa fábrica de vidros e espelhos que alimentava parte da indústria automobilística do país. Ele jamais foi a uma manifestação de rua, seja a favor do governo de Allende ou contra o regime golpista de Pinochet. Mas como alguns de seus colegas de trabalho eram engajados no ativismo político, terminou sendo levado junto com eles pelo Exército para a mais nova prisão da capital chilena, logo no dia seguinte ao golpe, quando as tropas invadiram a planta onde ele trabalhava.

    Hoje, aos 67 anos, Manuel ocupa seu tempo como guia voluntário nessa parte obscura do estádio onde a Universidad de Chile manda seus jogos. Ajudando a manter viva a memória que ele próprio não consegue esquecer.

    “Eu era uma pessoa antes do 11 de setembro, e sou outra desde então. Desde 73, venho sofrendo de depressão crônica e toda noite preciso tomar comprimido para dormir”, conta.

    Ele então mostra detalhes do vestiário em que viveu durante cerca de dois meses, até meados de dezembro do ano que marcou o início de uma sangrenta ditadura que duraria até março de 1990. Foi nesse cubículo de cerca de 50 metros quadrados que ele comemorou seu 25º aniversário.

    “Dividíamos esse vestiário eu e mais quase 300 presos. E nesse contexto, nós aprendemos a nos proteger e a cuidar uns dos outros. No dia do meu aniversário, um deles deu um jeito de trazer um bolinho que cabia na palma da minha mão, com um palito de fósforo fazendo o papel de vela. E nós demos um jeito de compartilhá-lo para que todos comessem”, relembra, emocionado.

    Galeria: O tour pelo Estádio Nacional de Santiago

    Conduzindo o tour pelo setor também conhecido como Escotilla nº 8, Manuel chama a atenção para as paredes. Em vários pontos, há riscos que parecem ter sido feitos por unhas ou algum outro equipamento agudo de pequeno porte. Era a forma que os prisioneiros encontravam de contar os dias que passavam em cárcere enquanto, lá fora, o país vivia um verdadeiro frenesi da perseguição política – para se ter uma ideia, 68,57% das prisões efetuadas pelo governo de Pinochet ocorreram ainda no ano de 1973, nos três primeiros meses de seu mandato, quando a recomendação oficial era que os cidadãos não saíssem de suas casas.

    Gol “fantasma”

    No período em que ficou preso no estádio, Manuel Méndez viu de perto um episódio marcante da história do futebol, das Copas do Mundo e também das relações políticas entre socialistas e capitalistas, no auge da Guerra Fria. Alinhado até as entranhas com os Estados Unidos, que patrocinaram o golpe sofrido por Allende, o governo de Pinochet logo tratou de romper relações diplomáticas com Cuba e os demais países do eixo de influência soviética, em seu discurso de posse. Mas o pouco sobre que ditadura chilena não tinha controle eram as circunstâncias que o esporte poderia lhe impor.

    Eram as Eliminatórias para a Copa de 74, que seria realizada na Alemanha. Naquela edição, estava planejada uma repescagem entre um time europeu e outro sul-americano, em jogos de ida e volta. O Chile, que tentava voltar a um Mundial após ficar de fora do torneio sediado no México em 70, fez uma campanha medíocre. Terminou tendo que decidir a vaga na tal repescagem – justamente contra os soviéticos.

    Até a primeira partida, tudo transcorreu com relativa tranquilidade. Apenas 15 dias depois de consumado o golpe militar, os chilenos viajaram à Rússia e lá empataram com os donos da casa em 0 a 0. Só que quando foi definido que o Estádio Nacional de Santiago sediaria o jogo de volta, os soviéticos passaram a denunciar o uso do estádio como centro de repressão por parte do regime de Pinochet. Pediram que a partida fosse remarcada para outra cancha. Mas como de costume (até os dias de hoje), a FIFA lavou as mãos e manteve o local. Resultado: a URSS nem sequer viajou ao Chile. A seleção da casa, empurrada por alguns milhares de torcedores, entrou sozinha no gramado e marcou um gol simbólico, que carimbou o passaporte da Roja à Copa do ano seguinte.

    Mancha

    Assim como marcou a história do futebol chileno com uma mancha sobre seu principal templo e sua seleção, a ditadura causou consequências imediatas na vida do povo do país. Dezenas de indústrias foram fechadas pelo governo através de um decreto, e uma parte cada vez maior do que era consumido no país passou a ser importada – entre esses produtos, os vidros e espelhos para automóveis que Manuel costumava produzir. Milhares de postos de trabalho simplesmente desapareceram, em nome de uma política de importações coerente com os ideais de Estado mínimo implementados pelos chamados Chicago Boys.

    Milhares de profissionais foram impedidos de continuar trabalhando sem maiores explicações, e muitos deles – caso de Manuel – foram perseguidos, presos e levados à Escotilla nº 8. Quem escapou da cadeia teve que se submeter ao regime ou deixar o país. Entre os que ficaram e foram presos, incluindo 1.450 mulheres (229 delas, grávidas), cerca de 20 mil foram levados ao Estádio Nacional – que há alguns anos se chama Estádio Victor Jara, poeta chileno torturado e morto com 50 tiros nos vestiários do estádio.

    É em memória à luta e ao sofrimento de nomes como Victor Jara, Manuel Méndez e tantos outros que os últimos governos chilenos preservaram a Salida nº 8 como memorial, exatamente do jeito que foi deixado pelos prisioneiros que ali estiveram entre setembro e dezembro de 1973. Um gesto que mantém fresca, para os milhares de torcedores que hoje frequentam o estádio, a lembrança do contexto vivido pelo país naqueles tempos conturbados. Algo que Manuel define com propriedade.

    “É um castigo para o Chile e para o futebol chileno, por uma mancha negra na nossa história”.

    Nota: Dado o momento político vivido atualmente no Brasil, a reportagem não pôde deixar de perguntar a Manuel Méndez o que ele pensa de alguns manifestantes que têm clamado às Forças Armadas brasileiras por um novo golpe de Estado similar ao de 1964. Cansado de contar e relembrar horrores, ele foi sucinto. “Eles não sabem o que estão pedindo”, ridicularizou, impaciente.

    (Os números citados na matéria constam do acervo do Museu da Memória e dos Direitos Humanos, em Santiago).