Category: Output

  • Quem vai desafiar o Rei?

    Quem vai desafiar o Rei?

    Como forma de presentear seus assinantes, o Podcast 48 resolveu criar o melhor preview em língua portuguesa da temporada 2020/2021 da NBA. Assim nasceu “Quem vai desafiar o Rei”, uma publicação digital e interativa de 70 páginas com uma análise detalhada de cada uma das 30 franquias da liga.

    A este que aqui escreve, coube ilustrar e diagramar o material, além de projetar seus elementos interativos: índice clicável, links para nossos programas no Spotify e botões de navegação por toda a publicação. Os textos ficaram a cargo de João Lima e Lucas David.

  • Gena, uma lenda do futebol pernambucano

    Gena, uma lenda do futebol pernambucano

    A publicação digital acima, que foi ao ar no Portal OP9, tinha o propósito de homenagear um atleta que marcou a história do futebol do estado: Gena, lateral multicampeão com a camisa do Santa Cruz e do Náutico, onde foi referência no hexacampeonato estadual que representa o ápice da história do clube. Para mim, as horas entre a notícia da morte dele e a postagem desse material no site foram de certa apreensão.

    Como praticamente todo o registro fotográfico de Gena estava (e ainda está) no acervo do então concorrente Diario, foi a primeira ocasião profissional em que eu me deparei com a necessidade de “ilustrar algo” para acompanhar a luxuosa crônica do amigo José Gustavo. No fim, a nossa opção foi por usar esse “storytelling ilustrado” de maneira complementar ao texto, contando um pouco mais da história de vida desse jogador lendário.

    Para folhear o material em tela inteira, basta clicar no ícone abaixo, no canto superior direito.

    [in5 url=”https://bau.pedrogalindo.info/in5/op9/gena/index.html” title=”Gena: uma lenda do futebol pernambucano” aspect=”1 / 1″]

    Abaixo, a crônica:

    Ele nasceu e se criou no bairro de Santo Amaro. Com nítidos traços de índio no rosto, na pele e no cabelo acabou se transformando em um dos maiores personagens da história do futebol pernambucano. Não tive o prazer de ver o Sr. Genival Costa de Barros Lima, carinhosamente apelidado de Gena pela família, jogar bola. Mas cresci ouvindo as histórias do meu pai. Entre elas me fascinava a conquista do Pentacampeonato Pernambucano do Santa Cruz.

    Torcedor coral, Seu Inácio tinha em mim — seu filho caçula –, um ouvinte atento das façanhas de um tal Gena. “Não me lembro de um lateral tão afoito como ele”, dizia. Porém, um ponto me chamava a atenção. Sempre que ele tocava no nome de Gena fazia questão de lembrar a participação do ex-jogador — falecido na última segunda-feira (12), em decorrência de uma infecção no abdômen, aos 75 anos –, na célebre conquista do Hexacampeonato do Náutico. “Já imaginou um jogador participar ativamente da conquista de 11 campeonatos? de forma consecutiva?”, questionava meu pai. De mãos dadas com ele pela Avenida Beberibe, no caminho para o Estádio do Arruda, eu ficava pensando no grande feito. Ainda hoje é difícil dimensionar.

    Gena foi multicampeão. Um atleta quase perfeito. Não só pela quantidade de títulos conquistados em sequência — jogando, diga-se de passagem –, mas por ser um inovador no setor em que atuava. Em 1963, quando veio o primeiro troféu da sequência de seis do Timbu, ele era considerado “louco” por alguns torcedores. Era sua característica avançar ao ataque constantemente.

    Seria quase uma irresponsabilidade abandonar a lateral-direita para chegar como homem surpresa na frente e finalizar contra o gol adversário. Lateral era para marcar. Não existia e nem se falava em ala-direito. Gena já mostrava que estava acima do seu tempo. Chegou a ser comparado com Djalma Santos, outro monstro da posição de lateral e que vestiu a camisa da Seleção Brasileira nos títulos de 1958 e 1962. O companheiro jornalista Lenivaldo Aragão lembrou que ele chegou a ser negociado com o Botafogo, mas o Náutico não aceitou a negociação.

    Completamente identificado com o Náutico, ele surpreendeu ao se transferir para o rival Santa Cruz. No Arruda, ajudou diretamente na sequência de maior quantidade de títulos consecutivos do clube no Estadual. Virou ídolo também coral. Marrento e consciente de sua qualidade técnica, chegou a recusar um convite para ir jogar no Corinthians. O motivo: teria que passar por um teste. Por outro lado, recebeu o honroso prêmio Belfort Duarte, dado pela então CBD — hoje CBF –, que homenageava jogadores que ficassem dez anos ou 200 jogos sem ser expulso.

    Sua humildade também era cativante. De sorriso fácil, Gena cultivava boas amizades. Eu tive o prazer de entrevistá-lo algumas vezes. Poucas, mas foi um privilégio. Ainda de olhos brilhando, diante de um ídolo que não vi jogar, mas conheci através de belas histórias e de feitos maravilhosos para um jogador que saiu de Santo Amaro para entrar na história do futebol pernambucano.

  • Após um ano, reforma trabalhista ainda não se traduziu em resultados

    Após um ano, reforma trabalhista ainda não se traduziu em resultados

    Texto originalmente publicado no OP9, em novembro de 2018.

    Poucos empregos gerados, um aumento considerável da informalidade e do número de pessoas em idade produtiva que desistiram de procurar um trabalho. Resumidamente, é esse o saldo da Lei 13.467/17, a Reforma trabalhista, em seu aniversário de um ano, completado neste domingo (11).

    Criada no governo Temer com o intuito de tirar o país da recessão, abrindo as portas do mercado de trabalho para a massa de desempregados que, segundo números do fim de outubro, é de mais de 12 milhões de brasileiros, a chamada modernização trabalhista regulamentou novos modelos para a relação empregatícia. Além disso, outro propósito declarado era celerizar a Justiça do Trabalho, com a prevalência do acordado sobre o legislado pela Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) e a implementação de regras mais rígidas para o trabalhador na hora de reclamar seus direitos.

    Só que as pretensões de seus criadores ainda não chegaram nem próximas de se concretizar, na opinião do sociólogo Sidartha Soria, coordenador do Observatório do Mercado de Trabalho em Pernambuco, uma parceria entre a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e o Ministério Público do Trabalho (MPT). Primeiro porque, segundo ele, as novas modalidades criadas ainda não “pegaram” entre os empregadores. “Parece que ela ainda não está sendo utilizada no ritmo ou na intensidade que esperava o governo”, avalia.

    Para o professor, o principal resultado da reforma trabalhista até este mês de novembro é a expansão vertiginosa do número de trabalhadores informais. “Está sendo criada uma escalada da informalidade, todos os dados mostram isso. Na verdade, do ponto de vista do mercado de trabalho, a reforma não gera empregos, ela vai piorar a qualidade dos empregos formais”, pontua.

    Sidartha reconhece que o balanço de empregos gerados no último ano é positivo – segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), foram 327 mil postos criados –, mas não acha que isso seja um sinal muito animador. “Em relação ao ano passado, é recuperação. Mas comparando com o último ano antes da crise, 2014, em que a economia já estava em desaceleração, o saldo havia sido de 730 mil vagas para esse mesmo período. E não tinha reforma trabalhista”, compara.

    “O que prova que a reforma, na verdade, diz respeito muito mais à qualidade do emprego e das relações de trabalho formais do que a qualquer outro aspecto. Ela não tem o poder de gerar ou de extinguir empregos”, defende.

    “Bico formalizado”

    A respeito da jornada intermitente, uma das principais inovações ocasionadas pela reforma, Sidartha pondera que ela ainda não está tão popularizada em função do aumento da massa de trabalhadores informais. “O trabalho intermitente é aquele que a literatura especializada chama de ‘bico formalizado’. O bico é você trabalhar eventualmente. Em princípio, nada muda na sua vida, você continua na sua casa, procurando emprego. Mas da estatística do desemprego, você sai”, explica.

    Além disso, o professor também acha que o trabalho intermitente não vai “pegar” porque, para quem contrata, vai continuar sendo bem mais fácil e vantajoso usar da mão de obra informal. “A minha hipótese é que a informalidade está aí para suprir a deficidade dos empregadores nesse tipo de ocupação. Não precisa usar o intermitente, porque ele usa o informal. Como você já tem estabelecidas essas redes laborais de natureza informal, e isso se reativa em momentos de crise econômica”.

    Desalento

    Um indicador que aumentou de forma muito preocupante nesse ano de nova legislação trabalhista em vigor foi o número de pessoas em idade produtiva que simplesmente desistiram de procurar empregos, os chamados desalentados. Sidartha enxerga nesse grupo um sinal de um problema mais profundo. “É o indicador maior de uma situação estrutural, ou seja, crônica, sistemática, continuada, de oferta reprimida de emprego”, observa. “O emprego começa a voltar esse ano, mas começa muito aquém tanto do ritmo que seria necessário para suprir a demanda por emprego das camadas novas que vão aparecendo, quanto para satisfazer a demanda potencial dos anos anteriores de crise”, conclui.

  • No aniversário de 130 anos da Abolição, Brasil ainda luta para erradicar trabalho escravo

    No aniversário de 130 anos da Abolição, Brasil ainda luta para erradicar trabalho escravo

    Conteúdo originalmente publicado no portal OP9 em 13 de maio de 2018.

     

    No último dia 13, o país comemorou o aniversário de 130 anos da abolição da escravatura. Foi nessa data que a Princesa Isabel assinou a chamada Lei Áurea. A monarca, que entraria nos livros de História como uma estadista liberal e abolicionista decidida, decretava ali que o Brasil, finalmente, estava libertando sua população negra para viver uma vida independente e digna, depois de mais de três séculos de senzala. Voltando ao século 21, no entanto, o que se vê é um panorama muito mais próximo do Brasil Imperial do que o desejável. É o que apontam os últimos dados do Radar do Trabalho Escravo, ferramenta desenvolvida pelo Ministério do Trabalho e atualizada nesta terça-feira. Em outras palavras, os números mostram com clareza absoluta que o combate ao trabalho escravo contemporâneo deixou de ser uma prioridade para o Governo Federal.

    Responsável por fiscalizar pessoas e empresas, a partir de denúncias sobre a existência de trabalho em condição análoga à escravidão, o Ministério do Trabalho encontrou 606 trabalhadores nessa situação em 2018. Um número bem distante dos 6.025 de 2007, ano que registrou mais resgates desde o início da série histórica disponível no Radar, em 1995. Talvez o leitor esteja se perguntando se a redução no número de resgates não indicaria justamente uma queda também no número de trabalhadores em situação análoga à escravidão. De acordo com o Procurador do Trabalho Tiago Muniz Cavalcanti, essa seria uma conclusão equivocada. Antigo coordenador nacional de Erradicação do Trabalho Escravo no Ministério Público do Trabalho, ele avalia que esses indicadores traduzem precisamente o contrário: são um indício de como está ficando difícil lutar contra a cultura escravocrata no país.

    Sinais

    Tiago explica que, desde a sanção da PEC dos gastos públicos, no fim de 2016, o Governo “fechou a torneira”. E todos os órgãos envolvidos nesse combate sofreram cortes drásticos em seus orçamentos. “O Ministério Público do Trabalho (MPT) ainda ajuizou uma ação civil-pública para garantir o repasse de recursos suficientes para garantir a continuidade das operações do grupo especial de fiscalização móvel, que deflagra em torno de 48 operações por ano”, conta. Era o primeiro sinal de que o Planalto não via a erradicação do trabalho escravo como uma de suas prioridades. A ação nem chegou a ser julgada: constrangido pela repercussão midiática, o Governo assegurou o repasse, e a divisão de combate ao trabalho escravo seguiu, de tanque cheio.

    Mas se essa divisão específica do Ministério do Trabalho conseguiu escapar da guilhotina, o mesmo não pode ser dito sobre a pasta como um todo. Tiago diz que o grupo móvel não sofreu cortes orçamentários diretos, mas toda a estrutura do MTE, que coordena e realiza todas as fiscalizações ordinárias, sofreu cortes drásticos. “A gente passou por um período no ano passado em que não foi deflagrada nenhuma fiscalização em zona rural, porque faltava dinheiro de toda ordem. Então a partir do momento em que você enxuga o número de fiscalizações em ambito rural, é lógico que você vai deixar de resgatar trabalhadores. Esse é o primeiro fator dessa redução”, avalia o procurador. O segundo fator, segundo ele, é o baixo número de auditores fiscais do Trabalho. “No início da década de 2000, a gente tinha o dobro do número de auditores que a gente tem agora. Em compensação, a gente tem o dobro da população economicamente ativa. A estrutura, o aparato humano, está aos pedaços. A partir do momento do impeachment, tudo isso foi potencializado por conta da limitação de gastos públicos, e chegou a um nível extremo”, revela.

    Outra oportunidade em que o Planalto não hesitou em andar de mãos dadas com o escravagismo foi em outubro do ano passado, quando editou uma portaria que flexibilizava os conceitos de trabalho escravo e dificultava a fiscalização. A legislação amplamente foi criticada dentro e fora do país. A bancada ruralista apoiou. “Eles dificultam demais, sempre se fazem presentes para dificultar o nosso trabalho. Nas comissões em que há uma representação da ala patronal, sempre opinam em sentido contrário às decisões tomadas pelo órgão colegiado. Muito embora formalmente eles se digam contra a escravidão, eu não tenho nenhum pudor em dizer que eles são a favor”, pontua.

    Senso comum

    Apesar dos esforços desses órgãos no sentido de erradicar o trabalho escravo, a cultura escravocrata resiste. Não apenas nos latifúndios e porões pelo Brasil, mas também na cabeça de muitos brasileiros. Um erro comum, por exemplo, é pensar que restrição do direito de locomoção é a principal premissa da escravidão. “Nem a lei diz isso, nem muito menos a história”, afirma o procurador. “O trabalho escravo, na realidade, está mais associado ao exercício, direto ou indireto, dos atributos do direito de propriedade”, discorre. “A situação é caracterizada pela apropriação de um ser humano pelo outro. Até mesmo no passado colonial, é incorreto achar que os ecravos eram cativos. Havia escravos que frequentavam o comércio, a igreja aos domingos. E não deixavam de ser escravos”.

    “A gente encontra esse discurso escravocrata até em decisões”, comenta. “Os juízes dizem que a situação é a situação de vida do trabalhador. Traduzindo, o juiz diz que só pode ser vítima de trabalho escravo quem não tem um nível de vida econômica alto. Aos miseráveis, a miséria. Uma cultura escravocrata”, resume.

    Entretanto, mesmo enxergando tantas explicações negativas para esses números, Tiago não deixa de creditar parte da queda ao trabalho que tem sido desevolvido nessa parceria entre o Ministério do Trabalho e o Ministério Público do Trabalho. “A gente está enfrentando o trabalho escravo contemporâneo há 23 anos, e percebe que houve uma melhora nesses pontos críticos. Isso se deve ao Estado se fazer presente”.

    Satisfação

    Para o atual chefe da Divisão de Fiscalização para Erradicação do Trabalho Escravo no Ministério do Trabalho, Maurício Krepsky, os cortes orçamentários pesaram menos do que a continuidade dos esforços de todos os órgãos envolvidos na luta pela erradicação. “A gente está desde 1995 com essa política pública, e não se podia esperar que os números fossem subindo eternamente”, opina. Ele diz que 2018 deve superar os anos recentes, e projeta um cenário otimista para os futuro próximo. “Eu vejo isso caminhando para que a gente tenha ações mais bem planejadas, com inteligência na busca de informações. E embora tenha algumas dificuldades para executar o nosso trabalho, eu considero que está sendo muito bem feito, dentro das possibilidades”.