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  • Entrevista: André Henning, a voz do Esporte Interativo

    Entrevista: André Henning, a voz do Esporte Interativo

    Texto originalmente publicado no Doentes por Futebol em 23 de janeiro de 2016.

    Desde 2007, o Esporte Interativo vem provocando uma gradual – e consistente – reorganização no mercado das transmissões esportivas no Brasil. E nada personifica melhor o atrevimento do canal de se lançar em um setor tão concentrado do que a careca reluzente e a voz marcante de André Henning.

    Nascido em Guarulhos (SP), criado na Europa, mas soteropolitano convicto, André é o principal locutor do canal que hoje é dono exclusivo dos direitos de transmissão da Liga dos Campeões no país. Ele esteve no Recife para narrar Santa Cruz e Flamengo, pelo Troféu Chico Science, no último domingo. E, na véspera da partida, teve uma bem humorada conversa com a reportagem do Doentes por Futebol, no saguão do hotel onde se hospedou.

    Ele não mediu o tempo ou as palavras. Sem pressa, falou sobre quase tudo. Do berço jornalístico – é filho de Hermano Henning, correspondente internacional da Rede Globo por mais de uma década, entre outros veículos – a suas influências e o exercício da profissão de narrador.

    Respondeu também às críticas ao tom adotado nas transmissões do Esporte Interativo e comentou sobre a revolução provocada pela Copa do Nordeste, principal produto doméstico do canal – que, para ele, está fazendo a região “voltar a ser referência em um momento delicado, em que está difícil encontrar referências”. Só hesitou na hora de apontar um favorito ao título da Lampions. “Juro que não sei”, garantiu. Confira a entrevista exclusiva:

    Quais são suas referências de narrador esportivo?

    Na locução esportiva, eu tenho dois caras que me influenciaram muito, que são os que eu cresci ouvindo. No rádio – a minha primeira paixão –, Osmar Santos. O bichinho me picou com ele. Começou a me fascinar a narração esportiva do rádio, aquela coisa de convocar torcida, ouvir o barulho da torcida. Comecei a gostar de futebol ouvindo rádio. E o Galvão Bueno. Desde o começo dos anos 80, não sei por que razão, comecei a gostar do cara. Eu morava em Salvador e ele ia lá narrar jogos. E meu pai, por trabalhar na Globo, na época conseguia me levar na cabine, e eu ficava lá com ele. Eu tenho esses dois como referências.

    De seu tempo como repórter de rádio, o que você levou de aprendizado?

    Muita coisa. Se todo mundo pudesse ter passado pela experiência de transitar por todas as fases de um jornalista esportivo, seria bom. Porque você aprende muito das dificuldades que as outras pessoas têm. A hora de chamar as outras pessoas, o que você pergunta para cada um. Você sabe o tipo de acesso que o repórter tem, porque tem coisas que você pergunta e ele não vai saber. Você ter passado por todas as áreas dá uma bagagem bem interessante. Eu sou um melhor narrador por ter passado pela reportagem. Eu entendo o repórter, valorizo o repórter, coisa que às vezes quem pensa só na narração acaba deixando passar batido. Eu fui plantão, operador, gravei comercial, chamada. Caminhei uma estrada bacana.

    Como seu pai influenciou na sua escolha por uma carreira no Jornalismo esportivo?

    Pouca gente sabe, mas meu pai, no começo da história dele do rádio, chegou a fazer rádio esportivo, em Guarulhos, por pouco tempo. A grande influência dele foi a paixão pelo rádio. Meu pai ainda é um grande ouvinte de rádio AM. Então, principalmente por termos morado fora do Brasil e de São Paulo por muito tempo, nosso contato com o Corinthians, nosso time, vinha muito pelo rádio.

    No exterior, meu pai sintonizava ondas curtas para poder ouvir a Bandeirantes AM, a Gaúcha, rádios que eram fortes em ondas curtas e que você consegue até hoje ouvir no exterior sem precisar da internet. Quando me mudei para Salvador, era uma maneira que eu tinha para entrar em contato com meu time. Eu ouvia futebol pelo rádio incentivado pelo meu pai. Ele dizia: “você sintoniza os 1000 kHz da Record, tem uma grande frequência, com 200 kW de potência, à noite vai chegar melhor o som”, etc. Foi esse tipo de conversa com ele que me despertou a paixão pelo rádio. Hoje é muito fácil. Mas ele não se acostumou, continua ouvindo chiado (risos).

    Quais as qualidades necessárias para um bom narrador?

    Eu acho que é dom. Não é qualquer um que consegue aprender a narrar. Pelo menos aprender a narrar de uma forma que você tenha sucesso. Acho que fazer o meio-campo você consegue, dá para ensinar o básico. Mas para uma pessoa estourar, tem um algo a mais que eu não sei explicar. O básico, principalmente, é saber tudo o que gira em torno do evento que você está narrando. O Esporte Interativo, por exemplo, tem três canais. Se você vai narrar um jogo, precisa saber os eventos que esses canais estão transmitindo, o que está acontecendo naquele momento em outro canal. Eu preciso ter o domínio total do que cerca as coisas que podem cair no meu colo. Pode acabar a luz do estádio e eu ter que passar para outro canal. Se eu não tiver o domínio dessas coisas, eu fico a pé.

    Então, usando as palavras de Galvão Bueno, “vender emoção” só é possível tendo o conteúdo como alicerce?

    Se você não estiver seguro da informação para soltar a emoção, você está roubado. Primeiro vem a emoção, mas… e aí? Você narra um gol do Guerrero. Se você não souber que ele está sem fazer gol há seis meses, não souber que ele foi contratado por um monte… cadê a emoção? Vai ser simplesmente o gol, que é emocionante, mas isso eu consigo ensinar para todos os outros. Mas ir buscar isso na hora, fazer a ligação, sentir que ele foi dar um abraço no Muricy, por exemplo. Isso é que vai ser o diferente.

    Sempre lembro quando fui narrar um jogo do Schalke 04, e aí aparece uma faixa em alemão que passou batida para muita gente e eu dei sorte porque conheço o idioma. Ela dizia “Eu acredito em milagres”, e estava escrito 58 na faixa. Se eu não sei que desde 1958 o Schalke não conquista o campeonato alemão, passou batido. Então, a informação é a base, e na hora que a bola rola é emoção total.

    É essa emoção que tem feito o Esporte Interativo crescer?

    Também. No Esporte Interativo, a transmissão dos programas é o final de uma história movida a emoção. Então, quando a gente vai fazer um jogo, a empresa inteira está envolvida nisso, a gente está batalhando por isso, qualquer jogo que seja tem o envolvimento de muita gente que é apaixonada pelo esporte. Não é só um simples jogo. A gente se envolve com a história, somos todos apaixonados pelo esporte. Então, o fato do EI ter escolhido essa forma de transmitir futebol e esporte de uma forma geral é o que nos faz diferente. Liberar a emoção nos aproxima do torcedor, do cara “comum”, porque a paixão nos une. A mesma paixão que o cara vendo o jogo tem, a gente tem.

    Algumas pessoas reclamam de aspectos das transmissões do EI, como gritos em excesso, por exemplo. Como vocês lidam com esse tipo de críticas?

    Eu interpreto de duas formas. Uma: não agradaremos a todos. Isso é fato. Não sou religioso, mas nem Jesus Cristo agradou. Eu acho que a maioria dos que dão uma chance, com o coração aberto, gosta. Tem gente que não vai gostar mesmo, e aí paciência. E que bom que o cara tem outras opções para ter uma narração “sóbria”, mais tranquila. Tem para todo gosto. Pode até ver o jogo sem narrador, conseguindo um link na internet.

    O outro ponto, que eu acho um pouco injusto, é o da gritaria. Fica parecendo que a gente começa uma transmissão sem falar nada que faça sentido. Não é isso. A gente transmite em um tom diferente. Não faz uma transmissão de gritaria. É realmente mais alto, mais intenso, e não vai agradar a todo mundo. A torcida também é mais alta. Outro dia, um cara falou: “ainda não entendi esse negócio de emoção e gritaria”. Pois é, tem gente que se emociona chorando, correndo, dando cambalhota. Essas coisas são inexplicáveis. Mas dizer que nossa transmissão é só gritaria é uma grande injustiça.

    Sobre essa briga pelos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro envolvendo Esporte Interativo e Globo, o que você tem a dizer?

    Basicamente nada, porque realmente a gente não sabe de nada. Imagino que seja assim em qualquer lugar. Isso é uma briga de gente grande, à qual eu não tenho acesso. Eu sei o que eu leio, e não sei nada além disso. Esquecendo um pouco os nomes Esporte Interativo, Globo, seja lá qual for a emissora, eu acho que a competição é saudável. O mercado livre é o melhor que tem. Então, que tenham opções.

    O futebol vive uma relação com uma emissora há muito tempo, com méritos. A emissora tem muitos méritos em estar aí há tanto tempo sendo parceira do futebol brasileiro. Mas continuo achando que o livre mercado é melhor. Se ela ganhar de novo, parabéns, tomara que seja o melhor para o futebol. Se ganhar outra que não o EI, tomara que seja melhor para o futebol, para o torcedor, para todo mundo. O monopólio não é bom em lugar nenhum. Do jeito que é feito hoje, não tem como discordar de que é monopólio. É só olhar e ver que uma emissora transmite a Seleção Brasileira desde que eu me entendo por gente.

    E em relação à dificuldade do Esporte Interativo em entrar na grade das TVs por assinatura, o que você pensa?

    É outra que eu falo como cliente. É outra briga de gente grande, e que eu não tenho nem a sensibilidade de me meter, porque se eu fosse me meter, daria errado (risos). Então, que bom que a gente tem pessoas para isso, eu não teria muita paciência. Eu sou cliente de uma operadora que não oferece o EI. Eu ligo e reclamo. Eu acho uma sacanagem, com o perdão da palavra, privarem o torcedor de ver a final do Mundial de Handebol, acho uma sacanagem o cara não poder ver a Liga dos Campeões, a Copa do Nordeste. Acho uma sacanagem o cara pagar 235 canais, sendo que ele vê cinco ou seis, e não consegue ver o conteúdo que ele quer porque existe algo maior. Existe algo que a gente não sabe, mas sabe. Eu, como cliente, dei um ultimato na minha. Eu vou mudar e vou buscar outras alternativas. Até hoje, eu vejo pelo EIplus. O cliente tem esse direito e é ele que vai vencer essa barreira, ninguém mais.

    Quanto à Copa do Nordeste, quais são suas expectativas?

    Vão ser algumas semanas interessantes, de muito trabalho. Se eu tivesse cachorro, não conseguiria entrar em casa (risos). Está todo mundo vendo o sucesso da Copa do Nordeste. A cada ano, repercute mais, dá mais resultado, vira referência. A gente está vendo o pessoal tentando descobrir o que foi feito aqui para replicar lá. Já deu uma volta bacana. O Nordeste voltou a ser referência. Aqui no Nordeste, a gente sempre foi referência no futebol – e eu me considero porque sou soteropolitano, fui criado em Salvador. E estamos voltando a ser. Num momento delicado, em que está difícil encontrar referências. Eu vejo a Copa do Nordeste chegando com força, estou muito animado.

    Está animado também para a fase final da Liga dos Campeões?

    Se a gente pudesse ter ido lá e sorteado as bolinhas, talvez não tivesse conseguido definir confrontos tão legais. Chelsea e PSG, Real Madrid com técnico novo, Arsenal e Barcelona… os ingredientes estão aí, e os confrontos também. Acho que vai ser bacana. A gente tem vários jogos exclusivos. Acho que mais torcedores vão ter a chance de ver essa reta final e estamos preparando uma cobertura daquelas. A gente vem aqui para o Recife para fazer Santa e Bahia (pela 1ª rodada da Copa do Nordeste) e, daqui, embarca para a Europa, para fazer PSG e Chelsea. Vamos fazer uma cobertura bacana, como a gente já vem fazendo, para que essas duas competições tenham um tratamento rigorosamente igual.

    Arrisca algum palpite de campeão da Copa do Nordeste?

    A gente devia pegar os finalistas e usar como referência. O Ceará está se remontando. Perdeu muita gente, mas tem a força da torcida, um técnico que, se encaixar o estilo dele – e parece que encaixou –, é duro segurar. O Bahia, que teve um trauma grande de não voltar à elite, ainda mais com o Vitória voltando. Só que o Vitória não joga a Copa do Nordeste, então é um semestre para o torcedor tricolor deitar e rolar. O Sport, o único que estava na Série A… juro que não sei. Ainda aparece um Campinense, um ASA. Tem muito time que não jogou Série A e B, começa a pré-temporada mais cedo e chega voando.

    E na Liga dos Campeões, dá para apontar algum favorito?

    É mais fácil porque tem o Barcelona, que é o time a ser batido. Mas eu não descartaria o Real Madrid com essa mudança de técnico, e nem o Bayern de Munique. Eu particularmente torço para o Guardiola conseguir dar uma Champions para o Bayern, seria legal. Sou fã do Guardiola, torço pelo sucesso dele e gostaria de ver ele dar um título europeu para o Bayern. Mas vão ter que correr atrás do Barcelona. É o favorito, não tem jeito.

     

  • Para a CBF, queda de Dilma representa “ponte para o futuro”

    Para a CBF, queda de Dilma representa “ponte para o futuro”

    Artigo publicado originalmente no site Doentes por Futebol (Foto: Reprodução)

    Já é concreto: por 180 dias, a presidenta eleita Dilma Rousseff desocupa seu cargo. É removida para dar lugar a Michel Temer. Sua saída significa uma catarse para os setores da sociedade que tanto sonharam com esse momento, assim como provoca um profundo suspiro de alívio entre as dezenas de parlamentares investigados que promoveram sua queda. É bem provável, no entanto, que a maior festa pela interrupção do governo da petista esteja ocorrendo bem distante de Brasília. Mais precisamente, na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro.

    Se nos últimos tempos tinha alguma coisa faltando na faraônica sede da Confederação Brasileira de Futebol, era notícia boa. Atolada em escândalos internacionais e investigada por uma CPI no Senado, a entidade vinha vivendo os anos mais tempestuosos de sua história, marcados por renúncias e prisões de seus principais dirigentes. Nesta quinta-feira, porém, eles acordam com um sorriso estampado no rosto, após a queda de quem vinha se mostrando, senão uma inimiga, alguém nem um pouco interessada em fazer concessões.

    Entre os tantos erros do governo Dilma Rousseff, seu grande acerto talvez tenha sido justamente essse distanciamento em relação à cúpula da CBF. A presidenta nunca mostrou qualquer simpatia às figuras que chefiaram a entidade durante seu mandato. Mas as inúmeras saias justas e divergências pessoais certamente não foram o motivo maior dos festejos no suntuoso Edf. José Maria Marin. A razão maior da alegria certamente é a esperança de dias mais tranquilos: se não dá para ter um refresco com o pessoal do FBI, o cenário doméstico se desenha muito mais favorável com a definição do impeachment.

    Entreveros

    Isso porque em mais de uma ocasião, a presidenta fez questão de se posicionar abertamente em campo oposto ao de Teixeira, Marin e Del Nero. Também não hesitou em acenar com medidas que enfraqueceriam bastante o poder da CBF. Por exemplo, lançou o nome de Ronaldo para a presidência do Comitê Organizador Local do Mundial de 2014. Depois, tentou garantir o refinanciamento de dívidas fiscais dos clubes somente para aqueles filiados a uma entidade que proibisse mais de uma reeleição – no que recebeu uma violenta patada do vice-presidente cebeefiano, Delfim Peixoto. Quando vieram à tona as investigações que levaram Marin para a prisão, Dilma não moveu uma palha para evitar que o dirigente fosse extraditado aos Estados Unidos, onde segue detido. Esses eventos serviram para criar um ambiente de pouco diálogo, que manteve a confederação em isolamento durante seu período de maior vulnerabilidade política, sobretudo após o 7 a 1.

    Só que aí veio o estouro da crise. Logo depois, a abertura do processo de impedimento da presidenta eleita. Diante disso, salvo poucas exceções, os principais veículos de imprensa do país adotaram um jornalismo quase que monotemático: todos os demais assuntos perderam a relevância ante a perspectiva da queda de Dilma. Para as raposas da CBF, foi o momento perfeito de agir.

    Após três meses afastado da presidência da entidade, Marco Polo Del Nero reassumiu o cargo no último dia 12, como quem não quer nada. Uma semana antes, o dirigente já havia driblado uma convocação para depor na CPI do Futebol, se valendo da sistemática sabotagem sobre a comissão. Uma prática que fez o senador Randolfe Rodrigues ser taxativo ao afirmar que o mandatário da CBF tem mais poder do que Dilma no Congresso Nacional. “Ele consegue barrar uma medida provisória editada pelo Executivo”, declarou ao UOL Esporte.

    Bancada na boa

    Enquanto a CPI do Futebol vive esvaziada, sem quórum para proceder suas investigações, a Comissão do Impeachment atravessou meses de trabalho intenso na Câmara. E nela, alguns dos nomes de maior destaque foram justamente deputados conhecidos por fazer parte da chamada “Bancada da Bola”: reunião dos parlamentares que costuma se posicionar a serviço dos interesses da CBF. Dos oito membros desse grupo, seis participaram da comissão – cinco deles, a favor da admissibilidade do impedimento, enquanto só Vicente Cândido, do PT-SP e sócio de Del Nero, foi contrário.

    Dois desses parlamentares tiveram papel especial nos trabalhos da comissão. Jovair Arantes, do PTB-GO e vice-presidente do Atlético Goianiense, foi o relator. E o mineiro Marcelo Aro, do PHS e diretor de Ética e Transparência da CBF (sim, esse órgão existe), foi protagonista em boa parte das sessões com discursos inflamados, sempre atacando a presidenta e pregando as boas práticas na gestão pública. Ambos foram personagens importantes para a aprovação do relatório que, posteriormente, seria votado e encaminhado ao Senado. Por isso, os dois chegam fortalecidos – assim como a entidade que costumam representar – ao interino Governo Temer que se inicia.

    Mas a situação da CBF não é melhor só por conta da atuação de Aro e Arantes. Entre os oito deputados da Bancada da Bola, apenas Vicente Cândido estará na oposição durante esse governo interino. Todos os outros sete são membros de partidos que apoiaram o impeachment da presidenta eleita e, portanto, terão ainda mais trânsito para seguir defendendo a entidade e seus dirigentes enquanto Temer for o presidente – até porque ele próprio sempre foi muito receptivo à causa cebeefiana.

    Sem escalas

    Em 2013, Michel Temer visitou José Maria Marin, então presidente da CBF, em sua residência. O encontro foi noticiado pelo site da entidade como se “um aliado de peso” tivesse sido conquistado, um interlocutor (enfim!) dentro do Poder Executivo. “Amigos há mais de três décadas”, conforme ressaltado pela matéria, os dois discutiram temas relativos à organização da Copa do Mundo, mas também selaram um pacto para que o então vice-presidente brasileiro tratasse de assuntos institucionais da confederação, de quem ele se colocou como representante junto ao Governo.

    Dois anos depois, o canal entre CBF e Presidência da República agora é direto. No Poder Legislativo, a entidade está ainda mais influente, contando com uma tropa de parlamentares mais fortalecidos do que nunca. Com toda essa blindagem política, fica bem mais fácil a vida dos dirigentes que, para evitar investigações, seguirão usando como alegação a natureza privada da confederação. Argumento que pode servir para frear a ação de uma Justiça pouco interessada, mas que continuará sendo pura falácia ante o caráter público do bem cultural imaterial que é o esporte mais popular do país.

  • Salida 8: um castigo para o futebol chileno

    Salida 8: um castigo para o futebol chileno

    Matéria originalmente postada no Doentes por Futebol em 2016.

    No Estádio Nacional de Santiago, que sediará diversos jogos e a grande final da próxima Copa América, está quase tudo pronto para o início de uma festa que o povo chileno aguarda com ansiedade. O campo ainda não tem a pintura necessária, mas a grama está em condição impecável. Entre a cancha e as arquibancadas, além do fosso, foram colocadas placas de acrílico – uma imposição da FIFA. Exceto em um pequeno setor atrás da barra que fica do lado oposto ao placar.

    Nesse espaço ínfimo em relação à capacidade total do estádio, o visual é bem diferente. Ao invés de acrílico, grades altas, com extremidades pontiagudas no topo. Em vez dos assentos vermelhos que predominam em quase toda a extensão das arquibancadas – resultado da última reforma, finalizada em 2010 -, as mesmas bancadas de madeira que foram colocadas em 1937, na inauguração do complexo esportivo. Um pedacinho de passado preservado, que resistiu às modernizações para que ninguém se esqueça dos horrores que o Estádio Nacional abrigou durante os meses finais de 1973.

    No dia 11 de setembro daquele ano, Salvador Allende, presidente eleito pelo povo chileno, deixava o poder e a vida, abrindo espaço para a consolidação do golpe de Estado promovido pelas Forças Armadas e encabeçado pelo general do Exército Augusto Pinochet. Com o país em estado de sítio, o aparato repressivo do governo ditatorial tinha total respaldo para realizar prisões em massa. E para abrigar os milhares de prisioneiros políticos capturados então, o local escolhido pela Junta Militar foi justamente o Estádio Nacional, que deixava de ser somente casa da seleção ‘Roja’ para se tornar também campo de concentração.

    O símbolo desse período negro da história do Chile, de sua seleção e de seu principal estádio é a chamada ‘Salida 8‘. Era desse setor das arquibancadas que entrava o único sopro de ar fresco para centenas de trabalhadores, artistas e estudantes – militantes ou não, incluindo também mulheres e crianças (!) – que eram mantidos prisioneiros na parte interna do estádio.

    Memória viva

    Entre esses presos políticos, estava Manuel Méndez. Às vésperas de completar 25 anos, o jovem trabalhava numa fábrica de vidros e espelhos que alimentava parte da indústria automobilística do país. Ele jamais foi a uma manifestação de rua, seja a favor do governo de Allende ou contra o regime golpista de Pinochet. Mas como alguns de seus colegas de trabalho eram engajados no ativismo político, terminou sendo levado junto com eles pelo Exército para a mais nova prisão da capital chilena, logo no dia seguinte ao golpe, quando as tropas invadiram a planta onde ele trabalhava.

    Hoje, aos 67 anos, Manuel ocupa seu tempo como guia voluntário nessa parte obscura do estádio onde a Universidad de Chile manda seus jogos. Ajudando a manter viva a memória que ele próprio não consegue esquecer.

    “Eu era uma pessoa antes do 11 de setembro, e sou outra desde então. Desde 73, venho sofrendo de depressão crônica e toda noite preciso tomar comprimido para dormir”, conta.

    Ele então mostra detalhes do vestiário em que viveu durante cerca de dois meses, até meados de dezembro do ano que marcou o início de uma sangrenta ditadura que duraria até março de 1990. Foi nesse cubículo de cerca de 50 metros quadrados que ele comemorou seu 25º aniversário.

    “Dividíamos esse vestiário eu e mais quase 300 presos. E nesse contexto, nós aprendemos a nos proteger e a cuidar uns dos outros. No dia do meu aniversário, um deles deu um jeito de trazer um bolinho que cabia na palma da minha mão, com um palito de fósforo fazendo o papel de vela. E nós demos um jeito de compartilhá-lo para que todos comessem”, relembra, emocionado.

    Galeria: O tour pelo Estádio Nacional de Santiago

    Conduzindo o tour pelo setor também conhecido como Escotilla nº 8, Manuel chama a atenção para as paredes. Em vários pontos, há riscos que parecem ter sido feitos por unhas ou algum outro equipamento agudo de pequeno porte. Era a forma que os prisioneiros encontravam de contar os dias que passavam em cárcere enquanto, lá fora, o país vivia um verdadeiro frenesi da perseguição política – para se ter uma ideia, 68,57% das prisões efetuadas pelo governo de Pinochet ocorreram ainda no ano de 1973, nos três primeiros meses de seu mandato, quando a recomendação oficial era que os cidadãos não saíssem de suas casas.

    Gol “fantasma”

    No período em que ficou preso no estádio, Manuel Méndez viu de perto um episódio marcante da história do futebol, das Copas do Mundo e também das relações políticas entre socialistas e capitalistas, no auge da Guerra Fria. Alinhado até as entranhas com os Estados Unidos, que patrocinaram o golpe sofrido por Allende, o governo de Pinochet logo tratou de romper relações diplomáticas com Cuba e os demais países do eixo de influência soviética, em seu discurso de posse. Mas o pouco sobre que ditadura chilena não tinha controle eram as circunstâncias que o esporte poderia lhe impor.

    Eram as Eliminatórias para a Copa de 74, que seria realizada na Alemanha. Naquela edição, estava planejada uma repescagem entre um time europeu e outro sul-americano, em jogos de ida e volta. O Chile, que tentava voltar a um Mundial após ficar de fora do torneio sediado no México em 70, fez uma campanha medíocre. Terminou tendo que decidir a vaga na tal repescagem – justamente contra os soviéticos.

    Até a primeira partida, tudo transcorreu com relativa tranquilidade. Apenas 15 dias depois de consumado o golpe militar, os chilenos viajaram à Rússia e lá empataram com os donos da casa em 0 a 0. Só que quando foi definido que o Estádio Nacional de Santiago sediaria o jogo de volta, os soviéticos passaram a denunciar o uso do estádio como centro de repressão por parte do regime de Pinochet. Pediram que a partida fosse remarcada para outra cancha. Mas como de costume (até os dias de hoje), a FIFA lavou as mãos e manteve o local. Resultado: a URSS nem sequer viajou ao Chile. A seleção da casa, empurrada por alguns milhares de torcedores, entrou sozinha no gramado e marcou um gol simbólico, que carimbou o passaporte da Roja à Copa do ano seguinte.

    Mancha

    Assim como marcou a história do futebol chileno com uma mancha sobre seu principal templo e sua seleção, a ditadura causou consequências imediatas na vida do povo do país. Dezenas de indústrias foram fechadas pelo governo através de um decreto, e uma parte cada vez maior do que era consumido no país passou a ser importada – entre esses produtos, os vidros e espelhos para automóveis que Manuel costumava produzir. Milhares de postos de trabalho simplesmente desapareceram, em nome de uma política de importações coerente com os ideais de Estado mínimo implementados pelos chamados Chicago Boys.

    Milhares de profissionais foram impedidos de continuar trabalhando sem maiores explicações, e muitos deles – caso de Manuel – foram perseguidos, presos e levados à Escotilla nº 8. Quem escapou da cadeia teve que se submeter ao regime ou deixar o país. Entre os que ficaram e foram presos, incluindo 1.450 mulheres (229 delas, grávidas), cerca de 20 mil foram levados ao Estádio Nacional – que há alguns anos se chama Estádio Victor Jara, poeta chileno torturado e morto com 50 tiros nos vestiários do estádio.

    É em memória à luta e ao sofrimento de nomes como Victor Jara, Manuel Méndez e tantos outros que os últimos governos chilenos preservaram a Salida nº 8 como memorial, exatamente do jeito que foi deixado pelos prisioneiros que ali estiveram entre setembro e dezembro de 1973. Um gesto que mantém fresca, para os milhares de torcedores que hoje frequentam o estádio, a lembrança do contexto vivido pelo país naqueles tempos conturbados. Algo que Manuel define com propriedade.

    “É um castigo para o Chile e para o futebol chileno, por uma mancha negra na nossa história”.

    Nota: Dado o momento político vivido atualmente no Brasil, a reportagem não pôde deixar de perguntar a Manuel Méndez o que ele pensa de alguns manifestantes que têm clamado às Forças Armadas brasileiras por um novo golpe de Estado similar ao de 1964. Cansado de contar e relembrar horrores, ele foi sucinto. “Eles não sabem o que estão pedindo”, ridicularizou, impaciente.

    (Os números citados na matéria constam do acervo do Museu da Memória e dos Direitos Humanos, em Santiago).
  • (2018) Mais de 1,8 milhão de crianças e adolescentes trabalham no Brasil

    (2018) Mais de 1,8 milhão de crianças e adolescentes trabalham no Brasil

    País desrespeita convenção internacional que previa erradicar as formas mais degradantes de trabalho infantil até 2016

    (Matéria publicada no Portal OP9 em janeiro de 2019)

     

    Em 2010, o Brasil foi signatário de uma convenção internacional que estipulava um prazo até 2016 para zerar o número de crianças e adolescentes ocupadas nas formas de trabalho insalubres e perigosas, e até 2025 para que o trabalho infantil fosse erradicado no país. No entanto, oito anos depois, no 12 de junho, Dia Internacional de Combate ao Trabalho Infantil, há pouco o que comemorar.

    Segundo os últimos números disponíveis sobre o assunto, ainda existe mais de 1,8 milhão de jovens entre 5 e 17 anos trabalhando, estando a maior parte deles empregada em atividades nocivas ao seu desenvolvimento físico e mental. Esse flagelo é apenas a ponta de uma cadeia que, não raro, leva a outras formas de violação de direitos. É a partir desse viés que a procuradora do Trabalho do Ministério Público do Trabalho de Pernambuco (MPT-PE), Jaílda Pinto, observa a omissão no sentido de erradicar o trabalho infantil do país. “Estudos revelam que há associação entre o trabalho infantil e gravidez precoce, homicídios. Isso é terrível, e muito alarmante. Os jovens são aliciados para o crime e para a exploração sexual quando estão na rua, sujeitos aos mais diversos riscos”, afirma.

    A procuradora, que comanda a Coordenadoria de Combate ao Trabalho Infantil (Coordinfância-PE) no estado, avalia também que o país ainda tem crianças e adolescentes trabalhando porque existe uma cultura muito negligente quanto ao tema. “O trabalho infantil acontece num cenário cultural que o tolera. Tem que haver uma mudança de padrões culturais. A sociedade tem que identificar aquilo como um trabalho nocivo. Aí entra o mês de junho, o mês mundial do Combate ao Trabalho Infantil”.

    Jaílda pontua ainda que deve haver uma ação mais integrada por parte das diversas esferas do governo no sentido de combater o trabalho infantil. “Um professor que identifica que o aluno falta a escola porque trabalha tem que informar à direção da escola, que tem que levar ao conselho tutelar e à assistência social, para que se chegue à família e se faça ela ser beneficiada por programa social. Toda a rede de proteção tem que funcionar de forma intersetorial. Aí é um grande passo para realmente eliminar o trabalho infantil”.

    Agenda tem audiência, atividades em sala de aula e prêmio

    Na próxima quinta-feira (14), o MPT-PE promove uma audiência coletiva com representantes das secretarias de Educação de 15 municípios, para tratar do papel da escola no combate ao trabalho infantil e na proteção ao trabalhador adolescente. Outras iniciativas planejadas são a abordagem, em sala de aula, de questões relativas ao trabalho infantil, até o mês de outubro, além da criação do Prêmio MPT na Escola, que vai agraciar os melhores trabalhos produzidos por estudantes sobre o assunto.

  • Brasil entre os 10 líderes num mundo em “autocratização viral”

    Brasil entre os 10 líderes num mundo em “autocratização viral”

    Não que essa seja exatamente uma novidade ou algo surpreendente. Mas na edição 2021 de seu estudo anual Democracy Report, publicada esta semana, o Instituto V-Dem mostrou de maneira indiscutível o que os brasileiros vêm sentindo na pele nos últimos anos: o país vive um acentuado processo de autocratização, e está entre os 10 países onde a democracia mais se deteriorou em 2020.

    De acordo com o estudo, desenvolvido desde 2017 por uma equipe multidisciplinar do Departamento de Ciências Políticas da Universidade de Gotemburgo, na Suécia, a autocratização se espalhou pelo planeta, e atualmente mais de um terço (34%) da população mundial vive sob regimes em que esse processo avança.

    A quantificação desses retrocessos é feita a partir de seis indicadores, que analisam desde a qualidade do processo eleitoral até o índice de participação da sociedade civil nas decisões. E em cada um deles, o Brasil apresentou um declínio que traduz, em números, os danos à democracia desde o golpe contra Dilma Rousseff em 2016, acentuados a partir de 2019, quando o atual presidente, Jair Bolsonaro, tomou posse.

    A publicação cita os ataques do capitão reformado à imprensa. “Censura oficial e hostilidade à mídia não partidária está crescendo com firmeza no Brasil, particularmente depois que o populista de direita Bolsonaro se tornou presidente em janeiro de 2019, incluindo disseminação de informação falsa por parte do governo.”

    No estudo, há a constatação de que em todos os países onde a autocratização avança, existe uma “cartilha”, um padrão de ação por parte dos seus líderes, que não costumam atacar imediatamente o coração da democracia – só o fazem depois de golpear e enfraquecer instituições de controle e a própria sociedade, um processo que no Brasil de 2021 parece consolidado.

    “Primeiro, eles tentamcontrolar a mídia, bem como a academia e a sociedade civil. Além disso, desrespeitam os oponentes políticos, e alimentam a polarização usando a máquina do governo para espalhar desinformação. Só depois de avançar em todas essas frentes, é hora de um ataque ao núcleo da democracia: eleições e outras instituições formais”.

    Entre os seis indicadores usados na mensuração, chama atenção a posição do Brasil no ranking mundial dos componentes igualitário (ECI) e deliberativo (DCI). O primeiro deles, como o nome sugere, está ligado às desigualdades sistêmicas do país, enquanto o segundo diz respeito ao peso da razão e do bem comum nas decisões políticas, em contraponto a apelos emocionais, interesses paroquiais ou coerções.

    Pois bem, em relação ao componente de igualdade (ECI), o Brasil é apresentado pela publicação como o 140º entre os 179 países investigados no estudo. Aparece logo abaixo de Fiji (139º) e logo acima da Etiópia (141º). Em 2017, ano da publicação do primeiro Democracy Report, o país era o 114º no quesito. Já no que tange ao grau de deliberação precedente às decisões políticas, o Brasil é o 136º, abaixo da República Centro-Africana (135º), porém acima da Somalilândia (137º). Em relação a 2017, quando o país ocupava o 108º lugar neste ranking, foi ultrapassado por 28 países.

    Década de retrocesso

    Apesar de estar apenas na sua 4ª edição, o Democracy Report compara os dados obtidos em 2020 aos indicadores apresentados pelos países 10 anos antes. E é aí que a situação brasileira se mostra mais dramática: em 2010, o Brasil marcava 0,79 pontos no índice de democracia liberal (LDI), o quesito mais pesado do estudo. Só para fazer um paralelo, foi a pontuação que a Coréia do Sul obteve este ano, e que a elevou ao grupo das 20 democracias mais fortes do planeta.

    De 2010 até 2020, o Brasil apresentou uma variação de -0,28 pontos – foi o 4º país que mais regrediu no indicador em todo o mundo -, e hoje marca apenas 0,51, não sendo mais considerado sequer uma democracias entre as 50 mais robustas.

    Fundamentos

    Apesar de tantos reveses ao ambiente democrático no Brasil, o estudo ainda considera o país uma “democracia eleitoral” – um conceito que se baseia no cumprimento dos princípios liberais clássicos, por meio de seis garantias institucionais:

    • Representantes eleitos;
    • Eleições livres e justas;
    • Liberdade de expressão;
    • Fontes alternativas de informação;
    • Liberdade de associação;
    • Cidadania inclusiva.

    Mesmo assim, só uma virada considerável no rumo dos acontecimentos pode evitar que o Brasil continue despencando no ranking anual do V-Dem. Enquanto isso, seu povo tenta sobreviver à pandemia e ao genocídio enquanto assiste, perplexo e inerte, ao sufocamento das instituições democráticas do país.

    Até aqui, Jair Bolsonaro nunca hesitou em enfraquecer, quando teve chance, a jovem democracia brasileira: antagonizou a mídia, armou milícias, desmoralizou as instituições e calou opositores. Seguiu, com louvor, cada ponto da “cartilha” do autocrata. Ninguém poderá se dizer surpreso quando ele se aproveitar das Eleições de 2022 para tentar seu derradeiro ataque.