Tag: pernambuco

  • (2018) Mais de 1,8 milhão de crianças e adolescentes trabalham no Brasil

    (2018) Mais de 1,8 milhão de crianças e adolescentes trabalham no Brasil

    País desrespeita convenção internacional que previa erradicar as formas mais degradantes de trabalho infantil até 2016

    (Matéria publicada no Portal OP9 em janeiro de 2019)

     

    Em 2010, o Brasil foi signatário de uma convenção internacional que estipulava um prazo até 2016 para zerar o número de crianças e adolescentes ocupadas nas formas de trabalho insalubres e perigosas, e até 2025 para que o trabalho infantil fosse erradicado no país. No entanto, oito anos depois, no 12 de junho, Dia Internacional de Combate ao Trabalho Infantil, há pouco o que comemorar.

    Segundo os últimos números disponíveis sobre o assunto, ainda existe mais de 1,8 milhão de jovens entre 5 e 17 anos trabalhando, estando a maior parte deles empregada em atividades nocivas ao seu desenvolvimento físico e mental. Esse flagelo é apenas a ponta de uma cadeia que, não raro, leva a outras formas de violação de direitos. É a partir desse viés que a procuradora do Trabalho do Ministério Público do Trabalho de Pernambuco (MPT-PE), Jaílda Pinto, observa a omissão no sentido de erradicar o trabalho infantil do país. “Estudos revelam que há associação entre o trabalho infantil e gravidez precoce, homicídios. Isso é terrível, e muito alarmante. Os jovens são aliciados para o crime e para a exploração sexual quando estão na rua, sujeitos aos mais diversos riscos”, afirma.

    A procuradora, que comanda a Coordenadoria de Combate ao Trabalho Infantil (Coordinfância-PE) no estado, avalia também que o país ainda tem crianças e adolescentes trabalhando porque existe uma cultura muito negligente quanto ao tema. “O trabalho infantil acontece num cenário cultural que o tolera. Tem que haver uma mudança de padrões culturais. A sociedade tem que identificar aquilo como um trabalho nocivo. Aí entra o mês de junho, o mês mundial do Combate ao Trabalho Infantil”.

    Jaílda pontua ainda que deve haver uma ação mais integrada por parte das diversas esferas do governo no sentido de combater o trabalho infantil. “Um professor que identifica que o aluno falta a escola porque trabalha tem que informar à direção da escola, que tem que levar ao conselho tutelar e à assistência social, para que se chegue à família e se faça ela ser beneficiada por programa social. Toda a rede de proteção tem que funcionar de forma intersetorial. Aí é um grande passo para realmente eliminar o trabalho infantil”.

    Agenda tem audiência, atividades em sala de aula e prêmio

    Na próxima quinta-feira (14), o MPT-PE promove uma audiência coletiva com representantes das secretarias de Educação de 15 municípios, para tratar do papel da escola no combate ao trabalho infantil e na proteção ao trabalhador adolescente. Outras iniciativas planejadas são a abordagem, em sala de aula, de questões relativas ao trabalho infantil, até o mês de outubro, além da criação do Prêmio MPT na Escola, que vai agraciar os melhores trabalhos produzidos por estudantes sobre o assunto.

  • Moradores de Igarassu denunciam contaminação em rico manancial

    Moradores de Igarassu denunciam contaminação em rico manancial

    Moradores de assentamento em Igarassu denunciam poluição de córrego por chorume e lixo, inclusive hospitalar
    Texto originalmente publicado em 28 de março de 2017 na Folha de Pernambuco (Foto: Ed Machado)

    Em pleno século 21, a água ainda não é um bem de acesso universal – mesmo para quem tem um dos maiores mananciais de Pernambuco no quintal de casa. É o caso dos moradores do Assentamento Engenho Ubu. Estabelecidos às margens da BR-101, em Igarassu, há cerca de 20 anos, eles têm como vizinho o rio Jardim, manancial da adutora Arataca, que abastece grande parte da Região Metropolitana do Recife, como o próprio município, além de Abreu e Lima, Paulista, Olinda e parte da Zona Norte da Capital. Apesar disso, ao longo da última década, as famílias que habitam o local têm assistido a uma drástica queda na qualidade da água. Mais precisamente desde a instalação da Central de Tratamento de Resíduos (CTR-PE), um aterro sanitário com capacidade para receber até mil toneladas de lixo por dia.

    Segundo relatos obtidos no local pela reportagem da Folha de Pernambuco, as cerca de 400 famílias do assentamento têm sido bastante afetadas pelo volume de resíduos de lixo lançado no manancial. Provas do descaso com que o rio tem sido tratado são as imagens e vídeos disponibilizados por um morador do Engenho Ubu que não quis se identificar. Ele registrou chorume e materiais descartados – incluindo lixo hospitalar – escorrendo em direção às águas do córrego.

    Representante jurídico dessas famílias, o advogado Carlos Mascena diz que os assentados lutaram muito para que o aterro não fosse implantado onde há um grande aquífero subterrâneo. “Não tem razão algo de tanto risco ser implementado ali. Na época que fizeram a sondagem, o local onde o risco era menor era em Itaquitinga, mas ficava inviável economicamente. Aí escolheram a BR-101 pela logística. É onde está o Aquífero Beberibe, que começa na Bahia e vai até Mossoró (RN)”, afirma. Hoje ele briga na Justiça por compensação financeira para as famílias assentadas. “Os poderes constituídos não nos levam a sério. Só vão levar quando acontecer o que aconteceu em Mariana”, dispara, em referência ao desastre ambiental ocorrido no fim de 2015 em Minas Gerais.

    Questionado sobre a denúncia, um representante da CTR declarou que a empresa jamais descartou nada no Arataca e que todo o processo é fiscalizado pela Agência Estadual de Meio Ambiente (CPRH). “A CTR nega veementemente que esteja acontecendo alguma coisa no rio Arataca”, complementou. Sobre essa afirmação, o advogado dos assentados foi enfático: “O rio Paratibe está morto, o rio Timbó está morto e quem fiscaliza é a CPRH. Hoje ela não passa credibilidade. A sociedade não pode dizer que o meio ambiente tem um fiscal dotado de infraestrutura, de imparcialidade”, avaliou.

    A Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa) informou, por nota, que a situação exposta não está relacionada às atividades da empresa, e que acionará a CPRH para que seja efetuada uma fiscalização no local. A CPRH, por sua vez, afirmou que Igarassu é um dos 13 municípios do Estado que executam ações de licenciamento, fiscalização e monitoramento ambiental, e que manterá contato com a prefeitura para fazer vistorias na área. Já o município esclareceu que a Agência Municipal de Meio Ambiente não tem jurisdição sobre a CTR, sendo a responsabilidade da CPRH, mas que acompanhará uma eventual vistoria técnica no local.

  • Agremiações centenárias resistem ao tempo e à falta de apoio

    Agremiações centenárias resistem ao tempo e à falta de apoio

    Bola de ouro, Lenhadores, Estrela Brilhante e outras instituições são fiéis guardiões da tradição carnavalesca
    Texto originalmente publicado em 24 de fevereiro de 2017, na Folha de Pernambuco. Texto em parceria com Marcos Toledo, e fotos de Alfeu Tavares.

    Em Pernambuco, o Carnaval é ao mesmo tempo muito simples e bastante complexo. Em tempos de conflitos, uma tradição de mais de 200 anos segue como exemplo e permanece viva mantendo unidos todos os elementos que fazem do tríduo momesco no Estado a festa mais democrática do planeta, capaz de reunir povos de todas as raças, religiões e condições econômicas. Esse exemplo, que remete aos tempos em que os negros escravos se juntavam em grupos que reproduziam suas nações africanas, ainda no século 18, o mesmo acontecendo com os índios nativos, com os costumes de suas tribos, e com os brancos, que levaram para os clubes de frevo a mise-en-scène das procissões quaresmais de origem europeia comuns no Recife em um mesmo período.

    Tradicionalmente, o Carnaval em Pernambuco sempre existiu sob a égide conceitual dessa espécie de período de trégua, quando todas essas características convergem e a fantasia de um mundo unido e perfeito parece fazer com que as pessoas convivam em paz. “Cadê Toureiro?/ cadê Bola de Ouro?/ as Pás, os Lenhadores (…)?” Estão aqui, Luiz Bandeira (autor do famoso frevo-canção “Voltei, Recife” desses versos), ao lado de Vassourinhas, Pão Duro, do Cachorro do Homem do Miúdo, do Boi Misterioso e das Verdureiras de São José; dos maracatus Estrela Brilhante, Nação Porto Rico, Nação Elefante, Nação Estrela de Igarassu e Cambinda Brasileira; e dos caboclinhos Cahetés de Goyanna, Canindé do Recife e Rei Tupinambá, instituições centenárias féis guardiões de um sonho que luta para nunca se acabar.

    Homenageado do Carnaval do Recife em 2015, ano de seu centenário, o Clube Carnavalesco Misto Bola de Ouro é um dos exemplos de agremiações que tiveram suas tradições resgatadas do museu, como se costuma falar. Fundado em 15 de setembro de 1915, na Rua da Bola, no bairro de Santo Amaro (área central da Capital), manteve-se ativo até 1954, quando foi aposentado. Quase três décadas depois, o então presidente da Federação Carnavalesca de Pernambuco (Fecape), Mário Orlando, entregou o estandarte do Bola de Ouro aos cuidados de Luíza Ramalho, antiga carnavalesca do bairro de São José. Dona Luiza faleceu meses após o centenário, mas já havia envolvido no clube toda sua família – em especial o filho Robervaldo Ramalho, então vice-presidente -, que hoje dá continuidade ao legado da agremiação. “Ela (Luiza) tinha pedido a ele (Robervaldo) que não deixasse essa cultura morrer”, conta Gláucia Araújo de Souza, 50 anos, companheira de Robervaldo e atual vice-presidente.

    A exemplo de várias outras agremiações, o Bola de Ouro tem como uma das principais dificuldades o fato de não contar com uma sede própria, além do problema comum a todos os grupos: a falta de recursos. “O maior sonho dela (Lui­za) era ter uma sede”, lembra Gláucia. Atualmente o Bola de Ouro funciona no bairro Bomba do Hemetério (Zona Norte). “Se a gente tivesse uma sede, poderia promover eventos, desenvolver um projeto social e colocar um Carnaval melhor na rua”, explica a vice-presidente, que soma esfor­ços na confecção dos adereços.

    Mesmo com as dificuldades, fazendo uso de recursos próprios e da verba da prefeitura, o Bola de Ouro começou a se preparar com antecedência para a folia deste ano, ainda em agosto de 2016, principalmente em função da saúde de Robervaldo, que sofreu um infarto em junho. Com o tema Na Magia Dourada: Bola de Ouro Dá as Cartas, a agremiação explora em seu desfile neste Carnaval os mistérios que envolvem as leituras dos baralhos ciganos.

    Assim o legado do clube tem continuidade com a técnica mais antiga da humanidade: os mais velhos tentando despertar o interes­se nos mais novos. “A gente envolve os pequenos, que veem a gen­te fazendo e vai pegando amor”, fala Gláucia. “A gente fica com medo dessa tradição morrer.”

    As mesmas dificuldades e esperança de permanência são compartilhadas por agremiações que são administradas por herdeiros de seus fundadores, como o o Clube Carnavalesco Misto Pão Duro, fundado no bairro do Pina (Zona Sul) em 16 de março de 1916. Hoje com sede na Rua Imperial (Centro), o clube é presidido por José Levino Xavier dos Santos, filho de um dos criadores. Sob o tema No Compasso do Frevo, o Pão Duro desfila neste domingo como todo ano, com a força da abnegação de seus integrantes. “É um bocado difícil. É preciso ter muito equilíbrio. Eu faço chapéu, diadema, costuro vestido. Sou completo”, orgulha-se Levino, de 81 anos.

  • Gena, uma lenda do futebol pernambucano

    Gena, uma lenda do futebol pernambucano

    A publicação digital acima, que foi ao ar no Portal OP9, tinha o propósito de homenagear um atleta que marcou a história do futebol do estado: Gena, lateral multicampeão com a camisa do Santa Cruz e do Náutico, onde foi referência no hexacampeonato estadual que representa o ápice da história do clube. Para mim, as horas entre a notícia da morte dele e a postagem desse material no site foram de certa apreensão.

    Como praticamente todo o registro fotográfico de Gena estava (e ainda está) no acervo do então concorrente Diario, foi a primeira ocasião profissional em que eu me deparei com a necessidade de “ilustrar algo” para acompanhar a luxuosa crônica do amigo José Gustavo. No fim, a nossa opção foi por usar esse “storytelling ilustrado” de maneira complementar ao texto, contando um pouco mais da história de vida desse jogador lendário.

    Para folhear o material em tela inteira, basta clicar no ícone abaixo, no canto superior direito.

    [in5 url=”https://bau.pedrogalindo.info/in5/op9/gena/index.html” title=”Gena: uma lenda do futebol pernambucano” aspect=”1 / 1″]

    Abaixo, a crônica:

    Ele nasceu e se criou no bairro de Santo Amaro. Com nítidos traços de índio no rosto, na pele e no cabelo acabou se transformando em um dos maiores personagens da história do futebol pernambucano. Não tive o prazer de ver o Sr. Genival Costa de Barros Lima, carinhosamente apelidado de Gena pela família, jogar bola. Mas cresci ouvindo as histórias do meu pai. Entre elas me fascinava a conquista do Pentacampeonato Pernambucano do Santa Cruz.

    Torcedor coral, Seu Inácio tinha em mim — seu filho caçula –, um ouvinte atento das façanhas de um tal Gena. “Não me lembro de um lateral tão afoito como ele”, dizia. Porém, um ponto me chamava a atenção. Sempre que ele tocava no nome de Gena fazia questão de lembrar a participação do ex-jogador — falecido na última segunda-feira (12), em decorrência de uma infecção no abdômen, aos 75 anos –, na célebre conquista do Hexacampeonato do Náutico. “Já imaginou um jogador participar ativamente da conquista de 11 campeonatos? de forma consecutiva?”, questionava meu pai. De mãos dadas com ele pela Avenida Beberibe, no caminho para o Estádio do Arruda, eu ficava pensando no grande feito. Ainda hoje é difícil dimensionar.

    Gena foi multicampeão. Um atleta quase perfeito. Não só pela quantidade de títulos conquistados em sequência — jogando, diga-se de passagem –, mas por ser um inovador no setor em que atuava. Em 1963, quando veio o primeiro troféu da sequência de seis do Timbu, ele era considerado “louco” por alguns torcedores. Era sua característica avançar ao ataque constantemente.

    Seria quase uma irresponsabilidade abandonar a lateral-direita para chegar como homem surpresa na frente e finalizar contra o gol adversário. Lateral era para marcar. Não existia e nem se falava em ala-direito. Gena já mostrava que estava acima do seu tempo. Chegou a ser comparado com Djalma Santos, outro monstro da posição de lateral e que vestiu a camisa da Seleção Brasileira nos títulos de 1958 e 1962. O companheiro jornalista Lenivaldo Aragão lembrou que ele chegou a ser negociado com o Botafogo, mas o Náutico não aceitou a negociação.

    Completamente identificado com o Náutico, ele surpreendeu ao se transferir para o rival Santa Cruz. No Arruda, ajudou diretamente na sequência de maior quantidade de títulos consecutivos do clube no Estadual. Virou ídolo também coral. Marrento e consciente de sua qualidade técnica, chegou a recusar um convite para ir jogar no Corinthians. O motivo: teria que passar por um teste. Por outro lado, recebeu o honroso prêmio Belfort Duarte, dado pela então CBD — hoje CBF –, que homenageava jogadores que ficassem dez anos ou 200 jogos sem ser expulso.

    Sua humildade também era cativante. De sorriso fácil, Gena cultivava boas amizades. Eu tive o prazer de entrevistá-lo algumas vezes. Poucas, mas foi um privilégio. Ainda de olhos brilhando, diante de um ídolo que não vi jogar, mas conheci através de belas histórias e de feitos maravilhosos para um jogador que saiu de Santo Amaro para entrar na história do futebol pernambucano.