Author: Pedro Galindo

  • Conar: “Não há necessidade” de regulamentar a publicidade infantil

    Conar: “Não há necessidade” de regulamentar a publicidade infantil

    Para vice-presidente da entidade, “a sociedade está protegida” pela autorregulamentação

    (Conteúdo escrito em 2015, para projeto durante a graduação em Jornalismo na Unicap)

    Parte crucial do debate em torno da publicidade infantil é o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária. Fundado em 1980, o órgão nasceu a partir de uma ameaça do Governo Geisel de criar uma censura prévia à propaganda. O setor, então, se uniu em torno da contraproposta de um Código de Autorregulamentação, que foi aceita pelo Poder Público. Desde então, o Conar tem agregado publicitários, representantes de empresas anunciantes e de veículos de mídia. E no que diz respeito à publicidade infantil, a entidade tem se notabilizado pela firmeza com que rechaça qualquer tentativa de regulamentação.

    Foi essa a tônica do discurso do vice-presidente executivo do Conar, Edney Narchi, em entrevista à reportagem. No Recife para uma reunião do Conselho de Ética da entidade, o advogado paulistano defendeu a atuação e os critérios do órgão na hora de coibir os abusos em anúncios. Para ele, a falta de leis de restrição à publicidade infantil só mostra como a autorregulamentação tem sido eficiente. Ele também rebateu críticas e comentou a Resolução 163/14 do Conanda, que proibiu qualquer anúncio voltado para crianças e adolescentes. “É como se um pastor aconselhasse na Igreja a não fazer sexo antes do casamento. Faz quem quer”, disparou.

    Especial: Publicicidade infantil

    O Conar recebe muitas denúncias relacionadas a abuso na publicidade infantil?

    Pouquíssimas. Mas o Conar tem acompanhando essa preocupação da sociedade brasileira em relação à proteção às crianças. De ofício, tem processado muitos anúncios dirigidos a crianças. Anúncios para divulgação de produtos infantis, anúncios que tratem direta e indiretamente com crianças. A gente tem, durante os últimos anos, entre 7 e 11% de todos os casos julgados no Conar dentro desse escopo da publicidade infantil.

    No Congresso, já houve algumas tentativas de regulamentação sobre a publicidade infantil. Por que elas não avançaram?

    O artigo 37 do Código de Autorregulamentação é o que trata o regramento ético que os conselheiros do Conar utilizam quando vão julgar uma denúncia contra qualquer anunciante e agência que tenha feito alguma eventual infração a respeito da proteção à criança e ao adolescente. Isso é nossa constituição para proteger crianças da má publicidade. E é tão boa, que faz 14 anos que existe um projeto de lei tramitando dentro do Congresso Nacional (o PL 5.921/2001) e não se aprova, porque não há necessidade. Passa uma legislatura, vai para o arquivo, aí o autor se reelege, pede o desarquivamento… já aconteceu três vezes. O deputado Luiz Carlos Hauly (PSDB-PR), muito bem votado no estado do Paraná, não perde eleição. O projeto dele é arquivado, ele pede o desarquivamento na outra legislatura. É um processo que está vivo há 14 anos, mas até agora não foi aprovado sequer na Câmara dos Deputados. Já passou por três comissões, está na última (CCJ). E já está com outra redação, com emendas substitutivas. Quando dentro do Congresso Nacional uma coisa fica rolando, rolando, é porque não há necessidade daquilo.

    Existe algum grau de omissão do Poder Público no que tange à publicidade infantil?

    Nós tivemos um julgamento em 2015 realizado no STF. Os promotores públicos entendiam que o Congresso Nacional e o Governo estavam se omitindo de legislar sobre a publicidade de cervejas, vinhos e bebidas ice. Todas as bebidas abaixo de 13°GL não são reguladas por Lei Federal na sua comunicação. Existe uma lei chamada Lei Murad (do deputado José Elias Murad) que regulamentou a propaganda de bebida alcoólica, produtos de fumo, medicamentos, tratamentos médicos e agrotóxicos. Essa lei rolou durante uns seis anos no Congresso até que foi aprovada em 1996, e entrou em vigor. Só que quando ela fala de bebida alcoólica, tem um parágrafo que diz assim: “Essa lei só se aplica a bebidas alcoólicas com teor acima de 13°GL”. Os promotores entendiam que isso é uma omissão, porque cientificamente é demonstrado que a partir de 0,5°GL a bebida pode interferir no controle das pessoas. Para encurtar a história: o STF entendeu que existindo um controle social sobre a propaganda de cerveja, vinho e bebidas ice realizado pelo Conar, que é amplamente respeitado e acatado pela indústria, pelos meios de comunicação, pelas agências de propaganda, não existe omissão do legislador. A sociedade está protegida porque existe uma autorregulamentação que trata do controle desses produtos. O Conar recebeu uma medalha por estar fazendo esse controle e a sociedade brasileira reconheceu.

    O trabalho do Conar tem sido efetivo para coibir os abusos?

    Muito se diz que quando ele atua, o estrago já está feito, pois o anúncio já foi veiculado. Eu só vou fazer uma comparação. Autorregulamentação é uma forma de controle social. Outra forma é uma lei. A lei diz que é proibido roubar. Quando o cara é preso ele já roubou, ou ainda vai roubar? Então, é sempre assim no fato social. O fato social se antepõe à eventual punição, à eventual restrição. Para as pessoas de bons modos, a existência da autorregulamentação pressupõe que vai ser cumprido aquilo. As boas agências cumprem, os bons anunciantes obedecem, a maioria do PIB brasileiro da indústria da comunicação é filiada ao Conar e consulta, se assessora dentro do Conar para fazer seu trabalho publicitário. Então, é supereficiente, no mundo inteiro é supereficiente. Quando a OMS (Organização Mundial de Saúde) trata desses assuntos de saúde, comidas que engordam, sempre solicita a participação dos mecanismos de autorregulamentação – e já somos mais de 60 espalhados pelo mundo. É uma criação intelectual da atividade de comunicação da maior relevância.

    Como o mercado tem reagido à resolução 163/14, do Conanda, que proíbe a publicidade infantil?

    Conanda não proíbe, ele não pode proibir. Quem pode proibir alguma coisa no Estado Democrático de Direito é a lei. O Conanda não é Poder Legislativo, é um braço auxiliar de uma secretaria especial com status de ministério. O Conanda não edita nem decreto. É uma resolução do Conselho do Conanda. Então, não tem poder mandatório. É um conselho, é como se você fosse na Igreja e o pastor aconselhasse a não praticar sexo fora do casamento. Faz quem quer acompanhá-lo, mas você não é obrigado a fazer. Você não tem a obrigação e nem pode ser punido se deixar de fazer, porque ele não tem poder cogente, não é lei, não pode impor algo a alguém. A ABERT (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e TV) fez uma consulta formal à AGU (Advocacia Geral da União) e recebeu exatamente essa resposta. Ela não se preocupa com as consequências da resolução Conanda porque não tem poder cogente. É um mero aconselhamento dentro de políticas públicas existentes no país. Então, o mundo da propaganda, cá entre nós, cagou e andou. Continua fazendo a mesma espécie de comunicação que já fazia, dentro das normas do Conar e dentro da legislação existente.

    Quais são os instrumentos existentes hoje para regular a publicidade infantil, e o que é necessário para que essa resolução do Conanda seja acatada?

    Já existe o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), existe o Código de Autorregulamentação, que é um acordo entre as partes da propaganda, existe a Constituição Federal, que trata de criança, existe o Código de Defesa do Consumidor, que é uma lei federal importantíssima que mexe com propaganda. Mas uma resolução do Conanda, desculpa, não é lei, porque a Constituição diz isso. Ela tem o artigo 22, que diz que é competência privativa da União legislar sobre uma série de matérias. E no inciso 29, está escrito lá: propaganda comercial. Ou seja, tem que passar pela Câmara dos Deputados, pelo Senado Federal e ser sancionado pela Presidência da República para virar uma lei que mexa com a propaganda. Para retirar direitos da propaganda, a Presidência da República tem que dar um ok.

    O senhor acha que é necessária uma maior regulamentação sobre o tema ou acredita que a infância está sendo bem protegida?

    Obviamente, a pessoa mais bem informada é mais apta para viver na sociedade que a gente criou. O Brasil passou por um período horroroso de restrições às comunicações, de restrição a atividades políticas, sociais, que foi o último período de ditadura. Para sair disso, aconteceu uma Assembleia Nacional Constituinte. É um novo pacto assumido por todas as partes que compõem a Federação, e nessa Constituição ficou definido que o Brasil é uma sociedade de regime capitalista de mercado. Foi assumido pela Assembleia Nacional Constituinte, que promulgou a Constituição de 88, que o regime econômico do país é o regime de capitais. Então, dentro disso, nós temos que acatar o respeito à liberdade de opinião, de expressão, de reunião, uma série de fatores que foram criados e que são pilares da nossa sociedade, dentro dos quais estamos vivendo. Se é um regime de trocas dentro do mercado, quanto mais informação você fornecer às pessoas mais preparadas elas estarão para viver nesse mundo que foi criado. Então, é óbvio que o jeito que hoje nós estamos criando, nossos filhos e netos estão sendo bem orientados.

    O senhor entende que a publicidade contribui para aumentar o consumismo entre as gerações futuras?

    Consumismo é um desvio do consumo. É uma doença, um desvio psicológico. Ninguém faz propaganda para criar consumismo, se faz propaganda para divulgar marcas, conceitos, oportunidades, ofertas, etc. E quem tem interesse naquilo aproveita essa informação e faz um ato de consumo. Não é porque existe um anúncio de uma marca de bala que você vai passar a ser viciado em bala, que você vai comprar um pote por dia e chupar. Não é assim que funciona o mundo. Esse receio dos superprotetores das crianças, de que se está criando uma sociedade consumista, se desmente pela própria natureza. Propaganda existe desde o início do século passado e não aconteceu nada disso no mundo. Ao contrário, o mundo evoluiu muito. Se criou o direito do consumidor, a consciência consumerista, algo que mexeu muito mais com as trocas sociais do que qualquer proibição que possa ter havido em qualquer país do mundo.

  • Uma nação de pequenos adultos

    Uma nação de pequenos adultos

    Parque de diversões que reproduz mundo adulto acende debate sobre proteção à infância

    (Conteúdo escrito em 2015, para projeto de reportagem durante a graduação em Jornalismo na Unicap)

     

    O Shopping Eldorado, no bairro de Pinheiros, em São Paulo, todos os dias tem seus corredores tomados por milhares de pessoas. O som em quase todo o espaço faz jus à intensa movimentação: conversas, música a meia altura, serviço de informação nos altofalantes. A exceção a esse burburinho fica no 2º subsolo. Basta descer a escada rolante para sentir uma mudança de ambiente: ao invés de vozes de adultos, passam a predominar gritos eufóricos de meninas e meninos. A reportagem descobriria, minutos depois, a causa da euforia dos pequenos. Eles estavam prestes a abandonar a condição de criança para experimentar uma sensação de independência ímpar, em atividades que muitos veem como educativas e lúdicas, enquanto outros identificam nelas a expressão máxima do conceito de “adultização” precoce.

    Especial: Publicidade infantil

    “Um dia, as crianças se cansaram do jeito que os adultos estavam administrando o mundo. Elas decidiram criar uma nação. Agora, elas tomam suas próprias decisões”, diz um anúncio no piso do shopping. O nome dessa “nação” é Kidzania – a razão do frisson infantil. Franquia de uma rede de mais de 20 parques de diversões que começou no México e se espalhou por outros dezesseis países, o espaço recebe por mês uma média de 25 a 30 mil crianças entre 4 e 14 anos desde sua inauguração na capital paulista, em dezembro de 2014. Essa garotada vai em busca da experiência de viver, por algumas horas, em um simulacro do mundo adulto. No Kidzania, se trabalha para se receber uma recompensa em moeda fictícia (“Kidzos”) e gastá-la comprando produtos dentro do próprio parque, onde estão presentes um total de 24 empresas, entre elas, marcas importantes como Burger King, CBN, Folha de São Paulo, Nikon, entre outras.

    Por causa da presença dessas empresas no Kidzania, muitas entidades de defesa dos direitos da criança acusam-no de compactuar, dentro de seu espaço, com estratégias de marketing agressivas demais para um público infantil. Além disso, também existem queixas quanto à brincadeira praticada no parque, que alegadamente não estimula a criatividade e fomenta um estilo de vida consumista. Todas essas críticas são rechaçadas pelo gerente de comunicação do espaço, Lúcio Medina. Para ele, as marcas estão lá para desempenhar o importante papel tornar mais concreta a experiência do público, e não para transformá-lo em uma nação de pequenos consumidores. “A ideia não é de consumismo. Elas (as marcas) estão aqui para ajudar na questão do realismo. É muito mais legal para a criança aprender a fotografar, ou ter a primeira experiência com fotografia, com uma câmera Nikon do que com uma câmara genérica. Por mais que o estabelecimento tenha todo o apelo visual das marcas, a gente é quem opera isso e não permite que o parceiro faça esse tipo de approach com a criança”, alega.

    Lúcio ressalta vários pontos positivos da experiência do Kidzania. Ele fala do parque como um local onde a criança tem seu primeiro contato com aquela que poderá ser seu trabalho no futuro – uma espécie de “teste vocacional”. “Aqui não tem roteiro, não tem um script determinado, não tem uma ordem de tarefas que ela tem que cumprir. Ela simplesmente chega numa cidade e descobre que ela vai trabalhar como carteiro, médico, jornalista. Ela brinca como uma criança livre, e aí ela acaba descobrindo um pouco como é cada profissão”, afirma. Segundo ele, o parque também ensina as crianças a cuidar de seu dinheiro. “A gente também orienta que a criança deposite esse dinheiro que ela faturou no banco, e leve para casa um cartão. Esse dinheiro fica salvo no banco e rende 2% ao mês. Quando ela voltar, ela aprende isso de economia”, explana.

    “Edutenimento” ou adultização? É difícil negar que o parque tem, de fato, uma veia educadora. Mas o que muitos questionam é que tipo de educação ele tem disseminado entre seu público – a ideia de que a vida nada mais é do que “trabalhar para consumir”, por exemplo. Essa lição de meritocracia, no entanto, é justamente a característica do Kidzania que mais agrada a pais como Vinícius, que disse ter conhecido o espaço através da revista Veja e resolveu levar o filho Paulo, de sete anos. “Ele percebe que, executando uma atividade, ele recebe um retorno. Comentam muito aquela coisa do consumismo, mas não é verdade, porque a criança tem o contato de maneira lúdica com a experiência do dia a dia de um adulto. Então, ela aprende muito mais, um aprendizado interessantíssimo que uma escola não pode oferecer”, defende. O alto número de marcas no estabelecimento também não incomoda Nathalie, cujos filhos de seis e oito anos são habitués no local. “Putz… eu acho que tem que ser. Não é o único lugar que tem”, resigna-se.

    Construído com um investimento de R$ 53 milhões, o Kidzania brasileiro foi o mais caro entre todas as unidades da franquia, com R$20 mi de vantagem em relação ao segundo da lista. O alto investimento definiu um novo padrão de lazer infantil no Brasil, e se propôs a trazer ao país o conceito de “edutenimento” – uma mistura de educação com entretenimento. Missão que, ao pé da letra, há de se admitir que o parque cumpre: as crianças que o conhecem, se encantam, e as atividades praticadas no local têm uma evidente proposta didática. São os valores ensinados no estabelecimento, contudo, que têm alarmado setores mais atentos aos estímulos a um estilo de vida consumista e pouco saudável.

  • Publicidade infantil: um convite à vida consumista

    Publicidade infantil: um convite à vida consumista

    Psicanalistas, publicitários, advogados, pais e mães avaliam os impactos dos anúncios sobre a infância e as consequências desse assédio das marcas no desenvolvimento das crianças

    (Conteúdo escrito em 2015, para projeto durante a graduação em Jornalismo na Unicap)

     

    Lucas, cinco anos, é um garoto que sabe como poucos se divertir com um tablet em mãos, mas não tem muitos amigos na escola. Guilherme, oito anos, também tem dificuldades de socialização. Mas seu problema é outro: tem alguns quilos a mais e sofre “na mão” dos colegas. Larissa, seis, também é humilhada na turma – tem o cabelo crespo. Bernardo, nove anos, mal vê os pais ao longo da semana. E, por isso, ganha preferência na hora de definir o destino da família nas férias. Estratégia semelhante é usada pela mãe solteira de Bárbara, oito anos, que não tem dinheiro para pensar em ir muito longe e, portanto, leva a filha para fazer unhas e alisamento no cabelo a cada quinze dias.

    Todos esses nomes citados são fictícios. Mas a fantasia para por aí: cada uma dessas histórias é tão real quanto os milhões de crianças e adultos anônimos que enfrentam os desafios de fazer parte de uma sociedade pautada pelo consumo. Um mundo em que itens à venda são símbolos de poder e, portanto, objetos de cobiça. Nesse contexto, criar filhos e convencê-los da ascendência do “ser” sobre o “ter” pode se revelar uma tarefa complicada para os pais. Que tem sido ainda mais dificultada à medida em que se expandem as mídias e, consequentemente, a propaganda – especialmente aquela que enxerga nos Lucas, Guilhermes, Larissas, Bernardos e Bárbaras consumidores em potencial. Ou de imediato, mesmo.

    Especial: Publicidade infantil

    Essa avidez das marcas para cativar seu público desde cedo faz todo o sentido. Segundo estudo de 2011 feito em onze países – entre eles, o Brasil – pela Viacom International Media Network, distribuidora do canal Nickelodeon, 97% dos pais com filhos entre seis e quatorze anos disseram conversar com a prole antes de sair às compras. E 91% admitiram que o diálogo é iniciado não por eles, mas pelas crianças. Até quando se trata de adquirir um carro novo, 60% dos pais confessaram ter sido influenciados pelos filhos. À mesma pesquisa, 80% destes, por sua vez, declararam ter a Internet como principal fonte de busca por produtos, enquanto os comerciais de TV foram a resposta de 70% deles à mesma pergunta. Números que mostram como a curiosidade, a facilidade no aprendizado ou até a influência das crianças sobre a família têm sido manipuladas pelos anunciantes, em todas as mídias.

    Promotores de vendas

    “A criança está absorvendo o argumento da publicidade e o está transformando em discurso próprio”, alerta a professora Janaína Calazans, coordenadora do curso de Publicidade na Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) e mãe. “Um dia, eu cheguei em casa e disse que ia fazer feira. Aí meu filho disse ‘faz, faz, faz Carrefour’ (jingle da rede). Você olha para a criança de sete anos e diz ‘onde tu escutaste isso?’”, relembra, dando ênfase ao espanto que a fez, então, se questionar. “O que o Carrefour está fazendo anunciando num canal como o Discovery Kids? É um público que não vai ao supermercado, não faz feira. Mas, de alguma forma, influencia”, comenta.

    Janaína conta esse causo com o humor e a tranquilidade de quem tem consciência: sua realidade é parte de um contexto muito maior. “A criança está sendo exposta não só à publicidade, mas a coisas que não são condizentes à idade dela. E você está lavando as mãos porque tem mil coisas para fazer, mas não está prestando atenção”, salienta, antes de fazer uma ressalva: a responsabilidade por essa vulnerabilidade infantil deve ser dividida entre alguns atores. “A gente precisa ter muito cuidado, porque às vezes se tenta encontrar culpados quando a culpa está na própria sociedade. A culpa é dos pais? Não, mas é da publicidade? Também não”, afirma.

    Colega de Janaína na Unicap, Gabriela Rocha é publicitária, professora, consultora e mãe de um filho de três anos. E, como Janaína, verifica os efeitos de sua profissão sobre as crianças na prática, dentro de casa. “Primeiro, é um público extremamente fácil de persuadir. E segundo, é um público multiplicador. A criança escuta e repete em casa, para as pessoas. É um público que tem forte poder de influência”, explica. Exemplifica: “Eu adoro TV, e é um dos vícios que eu infelizmente transmiti para o meu filho. E eu vejo meu filho repetindo o slogan que ele escutou na TV, cantando jingles. Isso está me fazendo me questionar onde essa criança vai parar, porque já está começando a pedir”, revela. Apesar disso, ela também faz questão de dividir essa culpa. “A publicidade reflete essas mudanças de valores na família. É difícil dizer quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha: se a publicidade está repercutindo algo que acontece dentro da família, ou se a família está reverberando um discurso publicitário”.

    Regulamentação

    Esse sentimento experimentado por Janaína e Gabriela também é compartilhado pelo advogado Gustavo Andrade. Além de ser pai, ele representa no Recife a Rede Brasileira Infância e Consumo (Rebrinc), que atua desde junho de 2013 no sentido de alertar a população para os aspectos negativos da publicidade dirigida às crianças e denunciar abusos. “Não é raro os pais se sentirem culpados por não poderem participar do dia a dia dos filhos como queriam ou acham que deveriam. E a compensação vem, quase sempre, representada por bens materiais. Na disputa com os pais, a indústria publicitária se sagra vencedora na maioria das vezes, já que passa muito mais tempo com as crianças do que aqueles”, elucida. Por isso, ele crava: só há um caminho para proteger a infância do assédio da propaganda. “Julgo necessária uma regulamentação”, pontua. Janaína, por sua vez, é ainda mais enfática. “Não devia ser autorizada nenhum tipo de propaganda para criança”, dispara.

    A opinião de Gustavo e Janaína é baseada na experiência de democracias que já restringiram a publicidade infantil. Países como Suécia, Canadá, Inglaterra, Estados Unidos e Alemanha, entre outros, possuem regras bem definidas do que pode ser veiculado para crianças. Na Noruega, por exemplo, é proibida qualquer propaganda direcionada a menores de 12 anos, assim como a exibição de qualquer comercial durante programas infantis. “A proteção à criança no Brasil, mais do que uma necessidade, é um comando constitucional. A educação para o consumo é importante, mas a proteção deve se dar sempre. A criança não tem completado seu ciclo de formação intelectual, carece de experiências e até de discernimento para efetuar suas escolhas de consumo, necessitando, por isso, de especial proteção”, defende o advogado.

    No Brasil, as restrições sobre a publicidade infantil são suaves. Além do artigo 37 do Código de Autorregulamentação Publicitária, que tenta tratar o assunto a partir de definições do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), há ainda a resolução 163/14 do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, que declarou abusivo qualquer anúncio direcionado para o público infantil. Essa determinação tentou ser abrangente: proibiu propagandas que se utilizem de linguagem infantil, efeitos especiais ou excesso de cores, representação da criança, trilhas sonoras cantadas por crianças, celebridades do universo infantil, bonecos, entre outros critérios. Mas como não tem força de lei, a orientação do Conanda vem sendo ignorada pelos anunciantes.

    Nesse cenário de regras tenras para anúncios ao público infantil, muitos enxergam perspectivas de futuro sombrias. Para Janaína, ele tem provocado “um processo de adultização da infância, um consumismo exacerbado e doenças como depressão e obesidade”. Gabriela também enxerga o desenvolvimento de uma geração de adultos consumistas. “A gente vai causar um problema ainda maior para a sociedade. Consumindo mais, vamos gerar mais lixo; com mais lixo, mais poluição. Vamos ter muito mais problemas relacionados à convivência”, antevê. Gustavo concorda e vai além: cita ainda o crescente impacto desse consumismo no orçamento familiar. “A publicidade incita a ansiedade para consumir, a valorização excessiva do status social e, em alguns casos, adultização e erotização precoces. Outro impacto de grande importância e que vem sendo negligenciado é o que se dá no superendividamento das famílias”, ressalta.

    Conflitos

    Esse poder de persuasão das crianças sobre os pais é crescente. E para o psicanalista Pedro Gabriel Fonseca, professor da Faculdade Pernambucana de Saúde, é um problema mais urgente do que a permissividade da legislação no país. “Há que se perguntar, antes: por que as crianças mandam nas casas? Por que são espécies de majestades, que determinam tudo com seu grito, com sua insatisfação”, alega, fazendo referência a um artigo de Freud sobre o narcisismo em bebês. E emenda: para ele, a questão central está no modelo-padrão de vida na sociedade contemporânea. “O problema, me parece, não é a publicidade para crianças, mas sim a vida transformada em consumo – para adultos e crianças. E se se opta por essa vida de consumo, então que as crianças já estejam nesse mundo desde cedo”.

    O mundo de consumo a que Pedro se refere é veiculado em telas e outras mídias analógicas, e tem sua expressão maior na propaganda. Que, para ele, é um fator que tolhe a essência das pessoas e se aproveita de uma fraqueza do próprio ser humano. “Pelo fato da gente ter esse vazio que nada preenche, vem a publicidade e diz que se você comprar um iPhone, preenche. Quando você compra, não preencheu. Mas é porque você comprou o 6… tem que comprar o 7. Essa mentira, de uma série que não termina, se apega a esse vazio fundamental. E o fim dessa série é o sujeito desaparecer e virar um apêndice da marca”, sacramenta.

    Também psicanalista, Bibiana Poggi tem se dedicado ao estudo do impacto das telas sobre as crianças. Membro da Escola Brasileira de Psicanálise e da Associação Mundial de Psicanálise, ela faz coro às críticas de Pedro: há muitos pais despreparados. “Quando, por exemplo, você está com um bebê no restaurante, e em vez de estar conversando com ele ou distraindo, coloca uma tela para ele assistir Galinha Pintadinha, acabou. A tela pode fascinar, deixar a criança completamente passiva, e pode também inquietar, agitar. Se elas não encontram um bom interlocutor, a quem elas possam dirigir essa inquietação, essa fascinação… que adultos a gente vai ter? Deixá-las soltas perante as telas, onde prevalece o imaginário, é um risco”, avisa.

    Por conta desse risco, ambos os profissionais estão de acordo que o Estado tem parcela de culpa pela ofensiva da publicidade sobre o poder de compra direto e indireto das crianças. Mas para os dois, a responsabilidade maior será sempre de quem toma conta delas. “É muito comum a gente querer responsabilizar o Estado e não se responsabilizar. É claro que ele tem sua culpa. Mas em relação aos rumos que uma vida toma, isso compete aos pais”, argumenta Pedro. Bibiana concorda. “Eu acho que as leis precisam existir, as regulamentações, o Estado precisa fazer o papel dele. Mas nada disso poderá substituir o papel de pai e mãe”, avalia.

  • Quinze minutos com Givanildo

    Quinze minutos com Givanildo

    Texto originalmente publicado na edição #3 da Revista Corner

    Quinze minutos podem ser quase nada, ou uma eternidade, dependendo do contexto. É bem apertado, por exemplo, para sair de Olinda de carro e chegar ao Centro de Treinamento do Náutico, no bairro da Guabiraba, zona Norte do Recife. Para resenhar com alguém que tem 599 partidas com a camisa do Santa Cruz, e mais dez pela Seleção, além de boas temporadas a serviço de Corinthians e Fluminense, então, é um intervalo ínfimo. Mas para entender quem é e como pensa Givanildo Oliveira, quinze minutos na companhia dele é tempo até de sobra.

    Por trás do semblante sério e enxuto que o técnico mostra diante das câmeras, não há absolutamente nada. Givanildo é um sujeito uno. É exatamente o que aparenta ser: um homem franco, que sabe onde pisa e tem consciência plena do valor de seu trabalho. Um profissional vitorioso, que conquistou a admiração de torcidas imensas sem jamais perder a simplicidade. Um eterno inquieto que, aos 68 anos, se considera realizado, mas dá cada treino como se fosse o último e não abandonou o hábito de traçar metas e sonhar.

    Às vésperas de um jogo decisivo do Timbu pela Série B de 2016, contra o Atlético Goianiense, dava para ver que Givanildo estava fazendo um sacrifício para receber a Corner. Ele é daqueles que não têm, nunca, tempo a perder — sobretudo quando o líder do campeonato era o próximo adversário. Mas a pressa para iniciar os trabalhos da tarde logo foi deixada de lado pelo técnico, que respondeu a todas as perguntas com a calma e a franqueza que o tornaram uma das figuras mais admiradas do futebol brasileiro — exceto no Sul e Sudeste, onde seu carisma se resume ao folclore.

    Em vez de se falar sobre o trabalho que desempenhava à época da entrevista, era preciso ter tempo para falar da trajetória de alguém que empilhou taças como atleta e técnico, mas cujas maiores conquistas foram fora dos gramados: mostrar que o nordestino não precisa se curvar para ser aceito, nem no futebol e nem na vida. Basta manter-se fiel à sua essência.

    Como foi sua infância e sua relação com o futebol?

    Eu era peladeiro, como era normal na minha época. Isso pelos anos 1965, 66. Eu fui pro Santa Cruz já era 68, já estava com 19 anos, perto de estourar a idade de juvenil, como se chamava na época. Minha vida foi lá em Olinda mesmo. Peixinhos, Vila Popular, onde eu nasci. Tinha muito campo de pelada na época. Naquela época tinha muito. Eu era o verdadeiro peladeiro mesmo. Tanto é que fui fazer o teste no Santa Cruz e passei.

    Como foi o início no futebol profissional?

    Comecei na base do Santa Cruz, fui aprovado, joguei, disputei um campeonato juvenil. Acabou esse campeonato, chegou agosto, que é quando eu faço idade. Estourei a idade, fiz 20 anos. E em seguida, no ano seguinte, disputei o campeonato de aspirantes, até ter a chance como profissional. Desde essa chance que me deram, eu entrei, fui bem, e acabou-se, nunca mais saí do time. O técnico era Gradim.

    Teve algum treinador nordestino como referência?

    Não tive. Na época é que não tinha mesmo. Hoje tem alguns por aí, espalhados, mas na época mesmo, era a maioria de fora. Eu tive Gradim, depois veio Duque, depois veio Evaristo de Macedo, Paulo Emílio, tudo de fora. Não tinha nordestino, não.

    Quais são as dificuldades que os técnicos nordestinos enfrentam?

    A dificuldade é a que encontra um engenheiro, um advogado, um gerente de banco que é do Nordeste. Pra chegar lá, é difícil. É difícil você ver um engenheiro daqui numa obra em São Paulo, mandando. É muito complicado. Melhorou muito essa parte, mas antes era pior. Porque, voltando pro futebol, hoje, você encara. Antigamente, contra um Flamengo, um São Paulo, times do Rio ou de São Paulo, você jogava pra perder de pouco. Hoje, não. Faz um tempo que mudou. Você encara. Têm algumas vantagens? Têm, mas você encara qualquer um deles. Ou aqui no Recife ou lá fora. Então, essa parte mudou. Mas esse lance do treinador, não tem como mudar, isso é muito complicado. Porque se aqui aparece um treinador, de repente ele começa a ir pra cima. É difícil um time lá do Sul vindo aqui. Aí vem time de Manaus, de Belém, do Ceará… mas pra um time de ponta de São Paulo chamar um treinador nordestino, é muito difícil.

    Você acha que a questão do sotaque dificulta?

    Não, porque o sotaque deles é uma porcaria também. Não tem nada a ver. Eu tive um problema uma vez, quando eu jogava ainda, o cara veio de gozação comigo pra falar porque tinha um bairro com nome de Arruda, outro com nome de Águas Compridas. Aí eu disse a ele, “vem cá, e aqui, Tatuapé? Anhangabaú? Tu quer falar o quê?” Ele calou-se e não falou mais nada. Quer dizer, não tem nada de sotaque. O que tem aí é o lado que você nasce.

    É mais fácil triunfar com um sotaque do Sul, como o gaúcho, por exemplo?

    Você falou em gaúcho. Quantos gaúchos? Felipão foi seleção brasileira. Tite, Mano, e muitos por aí afora. Isso é uma coisa natural deles. O nordestino sempre foi assim. Ele sempre foi olhado de lado. Em tudo.

    Quando você foi jogar no Corinthians, enfrentou preconceito?

    Eles [os paulistas] hoje ainda têm, só que antes era bem pior. Tem um bairro lá, que eu ia de vez em quando, onde eu tinha um amigo que tinha negócio, que se chama Brás. É onde fica a nata dos nordestinos. Todos os paulistas só chamavam de “paraíba”. Você podia ser baiano, pernambucano, do Rio Grande do Norte, e chamavam de “paraíba”.

    Nem quando foi jogar no Fluminense?

    No Fluminense, não, porque eu já estava até com uma idade mais avançada. Mas não teve discriminação. A palavra é discriminação. Isso aí existe. Mas felizmente, no Fluminense, essa parte não me atingiu, não.

    E na Seleção?

    Também não, porque inclusive eu fui convocado quando jogava no Santa Cruz, só que em seguida, o Corinthians me contratou. Então, eu jogava já no Corinthians, não senti nada não.

    Algum jogador que você comandou já debochou do seu sotaque ou do fato de você ser nordestino?

    Não. E nenhum é maluco não. Porque tá fora na hora.

    Você considera que sempre teve o respeito da imprensa?

    A imprensa, nem tanto. Você quer um caso?

    Por favor…

    Eu fui pra seleção, essa seleção era convocada todo mês. E todo mês tinha um amistoso. Quer dizer, passou o ano todinho sendo convocada e eu não entrei nem 20 minutos. A maioria entrou e eu fiquei na minha. Aí veio o Torneio Bicentenário, nos Estados Unidos. Fomos pra lá. Fizemos o primeiro jogo com a Inglaterra. Aí fomos para o segundo jogo contra os EUA, Falcão machucou faltando vinte minutos, eu entrei. Aí já arrebentei com o jogo. O próximo jogo, Itália, era o jogo final para ver quem era o campeão. No intervalo do jogo, mandaram me chamar lá em cima. Falcão não aguentou o tornozelo, aí eu entrei no jogo. Estava 1 a 1 o jogo. Nós ganhamos de 4 a 1 e fomos campeões. Depois desse jogo, nós tínhamos ainda três amistosos por lá, inclusive no México. Teve um em San Francisco, o penúltimo antes de vir embora pro Brasil. San Francisco estava muito frio e a gente ainda ia ter um treino na véspera do jogo. Eu fui para o café todo empacotado, acabei o café e eu fui para o hall do hotel lá. Sentei numa poltrona e fiquei. Tinha sido campeão do Bicentenário. Aí o que aconteceu… Você não lembra porque é muito novo, mas veio um cara que era um dos grandes do jornal, Solange Bibas. Veio Kléber [Leite], do Rio, que já foi presidente do Flamengo. O outro foi um tal de Jânio Quadros, era o nome do cara. Eu tô lá sentado, muito frio, esperando a hora de sair. Vieram os três. Aí chegaram “e aí, tudo bom?” Eu disse “tudo bem”. Eles falaram assim: “você não fala com a gente?” Eu disse: “Êpa! Eu não falo com vocês não, vocês que não falavam comigo. Estão falando agora porque eu joguei e fui campeão. Agora, vocês nunca me procuraram. Eu falo todo dia com a imprensa. Sabe com quem? Com um repórter lá do Recife, que acompanha aqui. Todo dia eu falo com ele. Agora, vocês nunca me procuraram. Então, não venham me dizer que eu não falo com vocês, não”. Aí ficaram tudo murchinho lá, tudo quietinho. Então, tem que ter a resposta, tem que ter na hora.

    Enquanto treinador, como foi sua experiência no futebol paulista?

    Eu não trabalhei no Guarani, eu passei no Guarani. Eu fiz três jogos, dezessete dias. Não dá. O cara era, sempre foi, de querer escalar, quis escalar meu time e eu disse “pode ficar com seu time que eu vou-me embora”. Então, eu passei. A Ponte, não. A Ponte eu fui uma vez, tirei do rebaixamento, estava lá em último lugar. No ano seguinte, estava de novo em penúltimo lugar, eu fui e livrei de novo. Esse trabalho meu foi, assim… E no Bragantino também, eu trabalhei.

    Sentiu preconceito como treinador?

    Como treinador, vale ainda a discriminação, até hoje. Porque com tudo que eu já fiz no futebol, eu nunca recebi um convite de um time de ponta. Nunca. Então, quer dizer, tem discriminação, com certeza.

    Muitos dizem que seu jeito simples e direto desmistifica muitas das teorias e estratégias do futebol. Concorda?

    Eu não posso nem dizer isso aí, porque se eu falar isso… Eu sou contra a teoria. E eu acho que a teoria também está dentro do futebol. A prática, em primeiro lugar. É quando eles entram no campo, pra jogar. Ali é a prática. Agora, a teoria é válida. É o que você mostra num quadro, escreve, aí é a teoria. Mas até o momento de chegar e fazer, é onde está o nome: jogo. Futebol é jogo, e jogo é difícil de você prever. Porque você fala do adversário, você explica, e daqui a um pouco o adversário entra em campo e vem diferente em alguma coisa. Você corre pra tentar mudar o posicionamento. Então, o posicionamento do futebol hoje é esse. Não tem muito segredo, não. A gente está jogando aqui, agora muda de vez em quando. Por exemplo, a maioria dos times hoje joga com dois pelos lados, um enfiado e um meia. Antes, eram dois meias. Então, é a maioria hoje. Só que eu fui campeão duas vezes pelo América jogando com três zagueiros. Aí muda tudinho. Então, é o momento do clube, das peças que você tem. Você não podia estar gravando aqui se esse celular estivesse quebrado. É o momento, é a peça que você tem, procure encaixar. Agora, você não pode prever nunca. Eu já tive uma vez, uma figura que chegou pra mim e disse assim “você vai jogar contra tal time, e o treinador de lá já trabalhou aqui. E ele é o seguinte: o time dele, com vinte minutos de jogo, tem que estar 2 a 0”. Eu disse: “não, peraí, não entendi”. “O time dele, ele treina pra quando estiver com 20 minutos de jogo, ele tem que estar ganhando de 2 a 0”. Eu disse: “se ferrou comigo”. Aí ele, “por quê?”. E eu disse “porque o meu, com dez minutos, vai fazer três, aí eu tô ganhando de 3 a 2”. É complicado, como o cara pode prever que vai estar ganhando? Então o futebol tem umas histórias, umas coisas, que não tem isso, não. Fora disso que a gente tá conversando, quando aparece essas coisinhas, é invenção. É invenção. Futebol é prático, é direto, é as peças que você tem. Você lida numa competição com machucão, com expulsão. Agora mesmo, nós fizemos um jogo com Ronny e Vinícius fora, que são dois jogadores que estão muito bem. Tudo isso acontece. Tinha um jogador aqui, antes de eu chegar no Náutico, Maylson, que vinha arrebentando. O Gallo [ex-técnico] perdeu ele. Quer dizer, são situações que a gente tem que encarar. Por isso que eu estou falando de grupo, e grupo é muito importante. Treinador é? É sim, é. Agora, o grupo é que vai ajudar e muito.

    Qual você diria que foi sua missão no futebol, como jogador, treinador e nordestino?

    Minha missão no futebol era ser vencedor. Essa missão que a gente acabou de falar, de nordestino, eu não consegui. Lutei muito, mas não consegui. Não sei se ainda vai dar tempo, não sei. Mas no futebol, não. Eu joguei 14 anos. Eu consegui jogar até os 34 anos, naquela fase que ninguém conseguia. Nenhum jogador… nenhum não, estou exagerando. Mas poucos jogadores passavam de 30 anos, 28 anos, por aí, e paravam. E eu fui até 34 anos, e ganhei 14 títulos, em 14 anos jogando. Porque teve ano que eu ganhei dois. Quer dizer, você joga 14 anos e ganha 14 títulos, é um vencedor. Eu hoje me dou o prazer de ter seis acessos. Que é difícil, ninguém tem. De estadual, eu tenho uma porrada. Só aqui em Recife, são cinco. Vai para Belém, são oito. Vai pra Maceió, são dois, CRB e CSA. América, um. Quer dizer, eu me considero um vencedor.